
Era uma vez um menino chamado Rafa, que tinha combinado com o papai: sábado era dia de empinar pipa no campinho. Rafa esperou a semana inteira. Escolheu a pipa, enrolou a linha, até rezou pra não chover. Mas no sábado, o papai chegou do trabalho cansado, com a cabeça cheia de problemas, e quando o Rafa apareceu com a pipa na mão, ele respondeu ríspido: "Hoje não, Rafa! Não enche!" — num tom bravo que o Rafa não conhecia. O Rafa foi pro quarto com a pipa arrastando no chão e o queixo tremendo. Não era do "não" que ele estava triste. Era do jeito. Mais tarde, bateram na porta do quarto. Era o papai, agachado pra ficar da altura dele. "Filho... eu errei. Eu tava cansado, mas isso não dava o direito de falar assim com você. Me desculpa?" Rafa cruzou os braços. A mágoa ainda ardia. Mas ele olhou pro papai ali, agachado, pedindo desculpa de verdade — e lembrou de quantas vezes o papai tinha perdoado os erros dele: o copo quebrado, a parede riscada, a birra do mercado. Perdão era uma estrada de mão dupla. "Desculpo", disse o Rafa, e o abraço que veio depois apertou a mágoa até ela sumir. "Ainda dá tempo de uma pipa antes de escurecer?", perguntou o papai. Dava. E a pipa subiu no céu laranja do fim de tarde, mais alta que nunca — porque coração que perdoa fica leve, e coisa leve voa.