
Era uma vez um burrinho chamado Teimoso, que morava numa fazenda cheia de animais admirados. O cavalo era escolhido pros passeios. O boi, pro trabalho pesado. O cachorro, pra guardar a casa. E o Teimoso... o Teimoso nunca era escolhido pra nada. "Burro é lento", diziam. "Burro é teimoso." E ele ficava no canto do pasto, olhando os outros partirem pras suas tarefas importantes, sentindo-se um bicho de sobra. Um dia, o filho do fazendeiro adoeceu, e o remédio só existia na vila do outro lado da serra. Mas tinha chovido a semana inteira: a estrada virou lama, e a trilha da serra estava estreita e escorregadia. "O cavalo vai!", disseram. Mas o cavalo, veloz demais, escorregava na lama. "O boi então!" Mas o boi, pesado demais, atolava. A trilha estreita da serra precisava de um bicho de passo curto, casco firme e paciência de pedra. Todos os olhares se viraram pro canto do pasto. O Teimoso subiu a serra no seu passo miudinho, um casco de cada vez, testando cada pedra antes de pisar. Onde era escorregadio, ele ia mais devagar ainda — e era exatamente isso que a trilha pedia. Horas depois, voltou com o remédio no alforje, firme como tinha ido. O menino sarou. E o fazendeiro afagou a crina do burrinho na frente de todos: "O passo lento dele foi o único que servia. Cada bicho desta fazenda tem a sua hora — e hoje era a hora do Teimoso." Dali em diante, ninguém mais falou "é só um burro". Porque naquela fazenda todos aprenderam: não existe bicho de sobra. Existe talento esperando a tarefa certa.