
Era uma vez um sapateiro chamado seu Firmino, que morava numa vila pequena e fazia os sapatos mais caprichados da região. Ele não era rico — mas tinha um costume que todos conheciam: nos sapatos das crianças pobres, ele costurava de graça um botão dourado. "Pra criança andar sabendo que vale ouro", dizia. Um inverno, chegou à vila um mercador rico, com uma carroça atolada e as botas rasgadas pela viagem. Bateu na porta do seu Firmino já de noite. "Sapateiro, conserta as minhas botas? Pago o que for." Seu Firmino trabalhou a madrugada inteira. De manhã, entregou as botas novinhas — e com dois botões dourados costurados. "Mas eu não sou criança pobre", estranhou o mercador. "Não é", sorriu o sapateiro, "mas viajante longe de casa também precisa lembrar que vale ouro." E não quis cobrar nada além do justo. O mercador partiu, pensativo. Nunca ninguém tinha lhe dado algo sem querer algo de volta. Anos depois, uma tempestade destruiu metade da vila — inclusive a oficina do seu Firmino, que perdeu ferramentas, couro e tudo. O velho sapateiro sentou nos escombros, sem saber recomeçar. Foi quando uma carroça grande apontou na estrada, carregada de madeira, ferramentas e couro novo. Dela desceu o mercador — agora mais grisalho — apontando os pés: usava as mesmas botas, com os dois botões dourados gastos de tanto carinho. "Um homem me ensinou que todo mundo vale ouro. Vim devolver a lição." A oficina foi reerguida em uma semana, com a vila inteira ajudando. E seu Firmino voltou a costurar botões dourados até o fim dos seus dias — agora sabendo, por experiência própria, que o bem que a gente espalha faz uma viagem longa... e sempre acha o caminho de volta.