
Era uma vez um menino chamado Teodoro, o menor escudeiro do castelo. Ele polia armaduras, carregava escudos maiores que ele e sonhava com o dia em que seria cavaleiro. "Ainda falta muito", diziam os grandes. "Cavaleiro precisa de coragem, e coragem é coisa de gente grande." Uma noite de inverno, o cavaleiro Sir Bruno voltou de viagem debaixo de neve, tremendo de febre. O castelo dormia; só o Teodoro, que polia as botas do mestre, viu o estado dele. O remédio pra febre? Só com a curandeira, que morava do outro lado do bosque escuro. "Vou chamar os guardas", pensou Teodoro. Mas os guardas estavam no portão distante, e a febre do Sir Bruno subia depressa. Não dava tempo. Só dava tempo de uma coisa: ele mesmo ir. O bosque à noite era tudo que o Teodoro temia: sombras compridas, corujas piando, galhos que pareciam braços. As pernas dele tremiam a cada passo. Mas ele descobriu um truque: a cada tremida de medo, lembrava do rosto do Sir Bruno queimando de febre — e o cuidado com o mestre falava mais alto que o medo do escuro. Um passo. Mais um. Mais um. Chegou na casa da curandeira ofegante, explicou tudo, e voltou com o remédio abraçado ao peito, correndo pelo mesmo bosque — que na volta, curiosamente, parecia menos assustador. O Sir Bruno sarou em três dias. E na frente de todos os cavaleiros, contou o que o pequeno escudeiro tinha feito. "Mas eu tremi o caminho inteiro", confessou o Teodoro, vermelho. O velho cavaleiro pousou a mão no ombro dele: "Tremeu e foi. Isso É coragem, menino. Quem não treme não precisa dela." E dizem que o Teodoro se tornou, anos depois, um dos grandes cavaleiros do reino — famoso por ensinar aos escudeiros pequenos que coragem não tem tamanho. Tem direção: é o amor pelos outros apontando o caminho, mesmo quando as pernas tremem.