Era uma vez, no fundo azul do mar, um caranguejo-eremita chamado Renato, que adorava colecionar conchinhas. Ele tinha conchas de todas as cores: rosa, branquinha, listrada, brilhante como pérola, e até uma dourada que brilhava como o sol quando um raio de luz atravessava a água. Guardava cada uma delas numa gruta escondida atrás dos corais, arrumadinhas em fileiras, do menor para o maior, e passava o dia inteiro admirando o seu tesouro, sozinho. Quando os amigos chamavam Renato para brincar de pega-pega entre as algas, ele sempre respondia: "Agora não, preciso arrumar minhas conchinhas." Quando o polvinho Otto passava e perguntava se podia só olhar de pertinho a coleção, Renato escondia tudo com as duas patinhas e dizia: "Melhor não, alguém pode confundir e levar a errada." Aos poucos, no recife inteiro, todo mundo já sabia: Renato era o caranguejo que nunca, nunca emprestava nada. E cada vez ele brincava menos com os amigos, ocupado demais contando e recontando suas conchinhas. Um dia, uma tempestade forte agitou o mar inteiro. As ondas reviraram a areia, quebraram corais e espalharam tudo pelo caminho. Quando as águas se acalmaram, a amiga de Renato, uma pequena garoupa chamada Bia, veio nadando triste até a gruta dele. "Renato", disse ela, com a vozinha tremendo, "minha casinha de concha quebrou na tempestade. Estou sem lugar para morar." Renato olhou para a sua pilha enorme de conchinhas e sentiu um aperto esquisito no peito. Ele tinha tantas, tantas conchas — dava para emprestar até dez e nem ia sentir falta. Mas, por um instante, pensou: "E se eu emprestar a minha favorita e ela não quiser mais devolver? E se as outras conchinhas ficarem com ciúmes de sumir uma da coleção?" E ficou ali, hesitando, com a patinha em cima do montinho, sem conseguir decidir. Bia, vendo que Renato demorava tanto a responder, baixou a cabeça e disse, com a voz bem baixinha: "Tudo bem, eu procuro em outro lugar." E foi nadando devagar, sozinha, procurando entre os corais quebrados, sem nem olhar para trás. Foi vendo a amiga se afastar tão triste que Renato sentiu o coração apertar de verdade, mais forte do que qualquer aperto que já tinha sentido antes. Ele olhou para a montanha de conchinhas — tantas cores, tantos brilhos — e percebeu, de repente, que nenhuma delas brilhava tanto quanto o sorriso de uma amiga feliz. Então saiu correndo, de lado como só os caranguejos sabem correr, esbarrando até num coral no caminho de tanta pressa, e alcançou Bia bem na hora em que ela ia entrar numa gruta vazia e fria. "Espera! Olha, escolhe a que você mais gostar. Pode ficar com ela para sempre, de presente." Bia parou, sem acreditar no que ouvia. "Tem certeza, Renato? Você nunca empresta nada..." Renato respirou fundo e sorriu, meio sem jeito. "Eu sei. Mas hoje eu entendi uma coisa: guardar sozinho não é tão bom quanto eu pensava." Os olhinhos de Bia brilharam de alegria. Ela escolheu uma conchinha listrada, do tamanho perfeito, e vestiu na hora, girando de felicidade na água. "Ficou linda em você", disse Renato, sorrindo largo. E, para a surpresa dele mesmo, sentiu uma alegria diferente, mais gostosa do que a de simplesmente guardar conchinhas sozinho numa gruta escura. A notícia correu rápido pelo recife. No dia seguinte, foi o polvinho Otto quem apareceu, timidamente, perguntando se podia ver a coleção de pertinho. Dessa vez, Renato abriu a gruta toda e disse: "Pode escolher uma para levar, se quiser." Otto escolheu a conchinha dourada, a mais brilhante de todas, e Renato nem sentiu pena — só alegria de ver o amigo tão feliz. Dali em diante, Renato continuou gostando de conchinhas, mas aprendeu a coisa mais importante: guardar é bom, mas dividir é ainda melhor. Sempre que encontrava uma concha bonita, já pensava logo em qual amigo ia adorar ganhar aquela. E suas brincadeiras de pega-pega entre as algas, com todos os amigos do recife rindo ao seu redor, essas sim, viraram o verdadeiro tesouro de Renato.