Era uma vez uma menina chamada Laura, que ia começar numa escola nova, numa cidade diferente de onde sempre tinha morado. Na noite anterior, ela mal conseguiu dormir, virando de um lado para o outro na cama, olhando para o teto escuro. "E se ninguém quiser brincar comigo? E se eu não souber onde é a sala? E se todo mundo já tiver amigos e eu ficar sozinha no recreio?", pensava, com um friozinho esquisito na barriga que não ia embora de jeito nenhum. De manhã, Laura vestiu o uniforme novo, ainda cheirando a loja, e ficou olhando para o espelho por um bom tempo antes de descer. Quando o carro parou na frente do portão, ela apertou a mão da mãe com toda a força que tinha. O pátio estava cheio de crianças que ela nunca tinha visto, rindo e correndo em grupos, todo mundo já se conhecendo, já com seus lugares certos para sentar. Laura sentiu vontade de voltar correndo para dentro do carro e nunca mais sair dali. "Mamãe, eu não quero entrar", sussurrou, escondendo o rosto atrás do braço da mãe, os olhos já cheios d'água. A mãe se abaixou, ficou na altura dos olhos dela e disse com carinho: "Eu sei que dá medo o que a gente ainda não conhece, meu amor. Mas coragem não é não sentir medo. É dar um passo mesmo com o coração batendo forte." Laura olhou para a mãe, depois para o portão, depois de novo para a mãe. Ela respirou fundo, três vezes, do jeitinho que a mãe tinha ensinado em casa, contando devagar até três a cada respiração. Um passo. Depois outro. E foi andando devagar até o portão, com as pernas meio bambas, o coração disparado, mas andando mesmo assim. Na sala, encontrou uma cadeira vazia lá no fundo e sentou-se bem quietinha, olhando para as próprias mãos no colo, sem coragem nenhuma de olhar para os lados ou de responder quando a professora chamou seu nome na chamada. A manhã inteira passou devagar, cada minuto parecendo uma hora. Na hora do intervalo, Laura ficou parada perto da parede, vendo os grupinhos de amigos se formando, sem saber como se aproximar de ninguém, o lanche esquecido na mochila. Foi então que uma menina de tranças, que também estava por perto, virou-se e perguntou, sorrindo: "Oi! Você é nova, né? Eu sou a Cecília. Quer sentar do meu lado no lanche?" Laura sentiu o coração dar um pulinho — não mais de medo, mas de surpresa boa. Ela hesitou só um instante, juntou toda a coragem que ainda tinha guardada dentro do peito, e respondeu, com um sorriso pequenininho: "Quero, sim! Eu me chamo Laura." As duas se sentaram numa mureta ao sol, conversaram sobre desenhos animados, descobriram que gostavam do mesmo personagem, e riram juntas de uma piada boba sobre o lanche da Cecília ter caído no chão. Mais duas meninas se aproximaram, curiosas, e o grupinho foi crescendo devagar, risada por risada. Quando a mãe voltou para buscá-la no fim do dia, Laura saiu correndo pelo pátio, animada, quase derrubando a mochila. "Mamãe, eu fiz uma amiga! Ela se chama Cecília, e amanhã a gente vai sentar junto de novo!" A mãe sorriu e abraçou a filha bem apertado, orgulhosa. "Viu só? Você teve coragem, mesmo com medo, e olha só o que aconteceu." Laura sorriu de volta, já pensando no dia seguinte, sem nenhum friozinho na barriga — pensando que, no fim das contas, o primeiro passo tinha sido o mais difícil de todos, e também o mais importante.