Era uma vez uma princesa chamada Alba que vivia num reino cercado de montanhas altas. Todas as princesas antes dela tinham aprendido a bordar tapeçarias magníficas, e esperava-se que Alba fizesse o mesmo. Mas por mais que tentasse, seus pontos saíam tortos, os fios se embaraçavam, e as tapeçarias pareciam ninhos de passarinho. — Não se preocupe — dizia a rainha, tentando animá-la. — Toda princesa aprende bordado. É só praticar mais. Alba praticava todos os dias, mas não melhorava. Em vez disso, ficava olhando pela janela, desenhando engenhocas estranhas nas margens do tecido: rodas que giravam sozinhas, pontes que se dobravam, sinos que tocavam com o vento. Um dia, uma seca terrível chegou ao reino. O rio que enchia os poços da vila secou até virar um fiozinho de água, e as plantações começaram a murchar. Os conselheiros do rei se reuniram por dias, discutindo como cavar poços mais fundos, mas nada resolvia — a água estava longe demais, do outro lado da montanha. Alba ouviu a conversa escondida atrás da porta do salão. Naquela noite, não conseguiu dormir. Pegou papel e carvão e começou a desenhar: uma roda grande, presa a uma correia de couro, que giraria com a força do vento nas montanhas e puxaria a água de um poço fundo para outro, mais perto da vila. Na manhã seguinte, ela levou o desenho ao rei. — Isso não é bordado, minha filha — disse ele, confuso, olhando as linhas estranhas no papel. — Não é — respondeu Alba. — Mas talvez ajude. O rei quase recusou, mas a seca era grave demais para ignorar qualquer ideia. Chamou o ferreiro mais habilidoso do reino, e juntos, ele e Alba passaram dias ajustando o desenho: o tamanho das pás, o ângulo da roda, a força da correia. Os outros conselheiros observavam de longe, cochichando. — Uma princesa não deveria estar suja de carvão e madeira — disse um deles ao rei, torcendo o nariz. — Isso é trabalho de carpinteiro, não de realeza. O rei hesitou por um instante, mas viu os olhos de Alba brilhando enquanto media as pás com um pedaço de barbante, e decidiu deixá-la continuar. Duas vezes a engenhoca quebrou. Da primeira, a roda girava rápido demais e as pás se soltaram, voando pelo pátio e assustando as galinhas. Da segunda, o vento nem sequer conseguia mover as pás pesadas, e a roda ficou parada, silenciosa, como se zombasse dela. Alba não desistiu. Naquela noite, sentou-se de novo à mesa de desenho, iluminada só por uma vela, e refez os cálculos várias vezes até os dedos ficarem pretos de carvão. Ajustou o desenho, tornando as pás mais leves — feitas de tecido esticado em vez de madeira maciça — e a roda mais alta, onde o vento soprava mais forte, no topo da colina perto da muralha. Na terceira tentativa, sob o olhar de meio reino reunido ao pé da montanha, a roda começou a girar. Devagar, depois mais rápido. A correia se moveu, e um fio de água começou a subir, gota a gota, até jorrar num poço novo, bem no meio da vila. O povo aplaudiu. As crianças correram para molhar as mãos na água fresca. E o rei, olhando para a filha coberta de carvão e poeira, entendeu que havia mais de um jeito de servir o reino além do bordado. O mesmo conselheiro que tinha torcido o nariz agora aplaudia junto com a multidão, sem graça. Ele se aproximou de Alba e curvou a cabeça: — Peço perdão, princesa. Eu estava errado sobre o que é trabalho de realeza. — Você não precisa mais praticar tapeçarias, se não quiser — disse o rei, sorrindo. — Ainda gosto de desenhar — respondeu Alba. — Só prefiro desenhar coisas que fazem alguma coisa. Naquela noite, enquanto as estrelas apareciam sobre as montanhas, Alba se sentou à janela com papel e carvão, sem pressa, já imaginando a próxima engenhoca — não porque alguém pediu, mas porque sua cabeça nunca parava de inventar.