Era uma vez uma princesa chamada Solana, cuja pontaria com arco e flecha era tão perfeita que ninguém no reino conseguia vencê-la. Ela acertava o centro do alvo de olhos quase fechados, e adorava contar isso para quem quisesse ouvir — e até para quem não queria. Todo ano, no aniversário do reino, acontecia o grande Torneio do Arco, e Solana sempre vencia. Ela tinha uma prateleira inteira no quarto só para os troféus, e adorava contar aos visitantes do castelo quantos anos seguidos já tinha levantado a taça dourada. Naquele ano, porém, um novo competidor se inscreveu: Bento, o menino que cuidava dos cavalos do estábulo. Ele era tímido, quase não olhava nos olhos de ninguém, e segurava o arco emprestado com as mãos tremendo um pouco. "Esse aí nem sabe segurar o arco direito", riu Solana, baixinho, para suas damas de companhia, sem perceber que Bento tinha ouvido cada palavra, parado logo atrás dela, com o arco pesando nas mãos. A primeira rodada começou. Solana acertou o centro, como sempre, e a plateia aplaudiu com força. Quando chegou a vez de Bento, suas mãos tremiam tanto que a flecha quase caiu antes de sair do arco. Alguns riram. Solana revirou os olhos. Mas, para surpresa de todos, a flecha de Bento também acertou o centro. E na rodada seguinte, também. Aos poucos, o estábulo tinha lhe ensinado uma pontaria silenciosa, sem que ninguém soubesse — ele praticava sozinho, todas as manhãs, antes de qualquer criado acordar, mirando em maçãs penduradas nas árvores, sem plateia, sem aplausos, só o som dos cavalos mastigando feno ao fundo. A plateia começou a murmurar, surpresa, e algumas pessoas até torciam agora para o menino desconhecido do estábulo. Solana sentiu um incômodo esquisito crescer no peito — não gostava nada daquele murmúrio novo. Na rodada final, empatados, Solana se preparou com sua flecha mais fina, confiante como sempre. Mas um vento forte soprou bem na hora do tiro, e a flecha desviou, raspando a borda do alvo. Solana ficou vermelha de vergonha. Era a primeira vez, na frente de todo o reino, que ela errava. Ouviu murmúrios. Sentiu vontade de sair correndo do campo, de esconder o rosto atrás do escudo mais próximo, de qualquer coisa que a livrasse daqueles olhares. Bento se aproximou dela, devagar. "O vento pegou você de surpresa", disse, sem zombaria na voz. "Comigo também pegaria, se eu não tivesse passado meses treinando com esse mesmo vento, lá no estábulo." Solana olhou para ele, surpresa com a gentileza depois de tudo que tinha dito sobre o menino, tudo que ele com certeza tinha ouvido. Respirou fundo e, na frente de toda a plateia, fez uma coisa que nunca tinha feito antes: se curvou diante de Bento. "Você mereceu vencer", disse, alto o bastante para todos ouvirem. "E eu devo pedir desculpas pelo que disse sobre você antes do torneio." O reino inteiro fez silêncio, depois aplaudiu — não só pela flecha certeira de Bento, mas pela coragem de Solana em admitir que tinha errado, e não só com o vento. Até o rei, que nunca tinha visto a filha se curvar diante de ninguém, sorriu de um jeito diferente daquele dia. Dali em diante, Solana e Bento treinavam juntos todas as manhãs no estábulo, ela ensinando truques de pontaria, ele ensinando a paciência de quem pratica sem plateia. E quando alguém no reino perguntava quem era a melhor arqueira, Solana sempre respondia com um sorriso: "Depende do dia — e do vento." E quando um novo competidor tímido aparecia num torneio, era sempre Solana a primeira a aplaudir, sem esperar para ver se ele ia perder.