Era uma vez uma princesa chamada Alma, que vivia num reino cercado de montanhas onde os invernos eram longos e gelados. No dia do seu aniversário, o pai, o rei, presenteou-a com um manto tecido pelos melhores costureiros do reino — um tecido tão especial que, à luz da lua, parecia brilhar como se tivesse estrelas costuradas dentro dele. Era, sem dúvida, o presente mais bonito que Alma já tinha recebido. Ela mal via a hora de usar o manto na Festa de Inverno, que aconteceria dali a três dias na praça principal do reino, onde todos os moradores se reuniam ao redor de fogueiras para comemorar a virada da estação mais fria. Alma imaginava a cena: ela entrando na praça, o manto brilhando sob as estrelas de verdade, todos admirando o presente do rei. Na véspera da festa, Alma decidiu passear pela vila com sua aia, já usando o manto por cima dos ombros, só para se acostumar com o peso e o brilho dele. Foi então que, perto do poço da praça, ela viu uma menina sentada num degrau de pedra, os braços cruzados contra o corpo, tremendo tanto que os dentes batiam. Alma reconheceu a menina: era Bia, filha do sapateiro, que ela já tinha visto brincando perto do castelo outras vezes. Bia contou, com a voz embargada, que o casaco dela tinha rasgado naquela manhã, e não havia dinheiro sobrando para comprar outro antes do inverno passar. Alma sentiu um aperto estranho no peito — não era pena de longe, era como se, por um instante, ela conseguisse sentir o frio que Bia sentia, o vento entrando pelas roupas finas demais. Olhou para o próprio manto, ainda novo, ainda cheirando a tecido recém-tecido, e pensou em como seria bonito usá-lo na festa do dia seguinte, brilhando para todo o reino ver. Mas olhou de novo para Bia, tremendo ali no degrau frio, e a vontade de brilhar na festa pareceu, de repente, pequena demais perto daquilo. Sem dizer muita coisa, Alma tirou o manto dos próprios ombros e colocou sobre os de Bia, ajeitando a gola para cobrir bem o pescoço dela. "Ele é seu agora", disse Alma, simplesmente. "Acho que você precisa mais dele do que eu preciso de brilhar numa festa." Bia ficou tão surpresa que só conseguiu dizer obrigada baixinho, sentindo o tecido quentinho envolver o corpo pela primeira vez em todo aquele dia. No dia seguinte, na Festa de Inverno, Alma chegou à praça sem o manto de estrelas, usando apenas sua capa comum de sempre. Alguns nobres cochicharam, estranhando a ausência do presente tão falado do rei. Mas então Bia apareceu, do outro lado da praça, envolta no manto brilhante, e contou a quem quisesse ouvir o que a princesa tinha feito por ela. A notícia correu rápido entre as fogueiras. Ainda naquela noite, moradores começaram a tirar cachecóis extras, luvas sobrando, casacos guardados, e foram entregando para quem estava com frio na praça — uma corrente que ninguém tinha planejado, mas que se espalhou de mão em mão como se fosse contagiosa. O rei, observando tudo de longe, se aproximou da filha e perguntou se ela sentia falta do manto. Alma olhou para a praça cheia de gente se aquecendo, rindo perto do fogo, e balançou a cabeça que não. "Ele ainda está brilhando", disse ela, apontando para Bia do outro lado da praça. "Só que agora em outra pessoa." Aquela noite, mesmo sem o manto de estrelas nos ombros, foi a Festa de Inverno de que Alma mais se lembrou em toda a vida — não pelo brilho que ela vestiu, mas pelo que conseguiu espalhar.