
Era uma vez, num lugar muito frio, onde o chão era branco de gelo e o mar era azul-escuro, uma colônia de pinguins. Entre eles vivia um filhote chamado Pipo. Pipo já tinha trocado as penas fofinhas e cinzentas de bebê por penas lisas, pretas e brancas, iguais às dos adultos. Isso queria dizer uma coisa: estava na hora de aprender a nadar e a pescar no mar. Todos os dias, os outros filhotes corriam até a beira do gelo, batiam as asinhas e — tchibum! — pulavam na água gelada. Voltavam lá de baixo com peixinhos no bico, rindo e escorregando de barriga. Pipo ia até a beira também. Olhava para baixo. A água era tão funda, tão escura, que ele não via o fundo. E voltava, devagarinho, para o meio da colônia. "Amanhã eu pulo", dizia. Mas no dia seguinte acontecia a mesma coisa. Os pés iam até a beirada, o coração batia rápido, e Pipo voltava. A mãe dele não brigava. Só trazia peixe no bico e dizia: "Quando você quiser, o mar vai estar lá." Os outros filhotes às vezes perguntavam: "Pipo, você não vai pular?" E ele inventava desculpas: "Minha pena está bagunçada", "Estou com sono", "Hoje o mar está muito mexido". Um dia, a colônia estava toda perto da água. Entre os pinguins menores havia uma filhotinha chamada Neve, ainda de penas cinzentas e fofas — penas de bebê, que ainda não deixam nadar. Neve estava brincando de escorregar numa placa de gelo fininha, bem na beirada. Escorregava, ria, subia de novo. Até que, num escorregão mais forte, a plaquinha se soltou do gelo grande. Bem devagar, com Neve em cima, ela começou a se afastar, boiando. Neve parou de rir. Olhou para a água entre ela e a colônia. Era pouquinha ainda, mas estava aumentando. "Mamãe!", piou Neve. Os pinguins adultos estavam mais longe, pescando. Os outros filhotes estavam no mar, do outro lado. Na beirada, bem pertinho, só havia um pinguim. Pipo. Ele olhou para Neve. Olhou para a água funda e escura. Os pés tremeram. A barriga gelou por dentro. E então Pipo pensou numa coisa só: Neve não sabia nadar. Ele sabia — só nunca tinha tentado. Pipo respirou fundo, fechou os olhos, abriu as asinhas e pulou. Tchibum! A água estava gelada. Por um segundo, tudo ficou azul e silencioso. Pipo bateu as asinhas uma vez, duas vezes... e sentiu o corpo deslizar. Não afundou. Voou debaixo d'água, do jeito que só os pinguins voam, rápido e leve. Subiu ao lado da placa de gelo. "Segura firme, Neve!" Pipo encostou o peito na plaquinha e começou a empurrar, batendo os pés e as asas. A plaquinha era leve, mas a água puxava para o outro lado. Pipo empurrou mais forte. Mais um pouco. Mais um pouco. Até que — toc! — a placa bateu no gelo grande da beirada. A mãe de Neve já vinha correndo e puxou a filhotinha para perto. Neve estava bem, só um pouco assustada, e logo se aninhou nas penas da mãe. Pipo ficou boiando na água, com o coração disparado. Olhou em volta. O mar continuava fundo. Continuava escuro. Mas agora ele sabia que conseguia nadar nele. Então mergulhou de novo — dessa vez de olhos abertos. Lá embaixo viu um cardume de peixinhos prateados brilhando. Pegou um com o bico e subiu, todo orgulhoso. Quando saiu da água, os outros filhotes estavam esperando. "Pipo! Você pulou!" "Pulei", disse ele, escorregando de barriga até a mãe e deixando o peixinho aos pés dela. Naquela noite, o céu ficou cheio de luzes verdes dançando. A colônia se juntou bem apertadinha para se esquentar. Neve dormiu encostada em Pipo, e Pipo dormiu ainda com um pouquinho de medo do mar fundo — mas sabendo que dava para pular mesmo assim.