Dora e a Luz Feita de Pedacinhos
Era uma vez
Dora e a Luz Feita de Pedacinhos
Criatividade8 min · 3-6 anos (geral)
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Era uma vez…

Era uma vez, numa ilha pequenina cercada de mar, um farol branco e vermelho, alto como uma girafa de pedra. Lá em cima, todas as noites, uma lâmpada grande girava e jogava luz sobre as ondas, para os barcos de pesca saberem onde ficavam as pedras e onde ficava o caminho de casa. Quem cuidava do farol era o avô de Dora. E Dora, que tinha cinco anos e meio, achava que aquele era o melhor trabalho do mundo. Numa tarde, o avô subiu os cento e dois degraus para limpar a lâmpada e desceu com a cara séria. "O vidro grande rachou", disse. "Vou de barco até o continente buscar outro. Volto antes de escurecer." O avô foi. Dora ficou com a avó, que fazia bolinho de chuva na cozinha da casinha ao pé do farol. Mas o céu mudou de ideia. Uma neblina branca e grossa chegou do mar, tão grossa que Dora não via nem o portão do quintal. O rádio velho da cozinha chiou, e a voz do avô apareceu: "Está tudo bem comigo, mas não dá para atravessar com essa neblina. Vou dormir aqui e volto de manhã." A avó suspirou aliviada. Mas aí, lá longe, no meio do branco, ouviu-se um som: FÓÓÓM. A buzina de um barco. "É o Seu Joca", disse a avó, apertando o pano de prato. "Ele e o filho saíram para pescar hoje cedo. Sem a luz do farol, vão ter dificuldade para achar a entrada da enseada." Dora olhou para o farol, escuro e calado. Ela pegou a lanterna da cozinha e subiu os cento e dois degraus, contando baixinho. Lá em cima, acendeu a lanterna e balançou na janela. A luzinha amarela entrou na neblina... e sumiu, engolida pelo branco. Pequena demais. FÓÓÓM, fez a buzina, um pouco mais longe. Dora desceu correndo. Pensou. Andou pela cozinha. Olhou tudo: as panelas penduradas, as velas da gaveta, o espelho redondo do banheiro, os potes de vidro das compotas. E teve uma ideia. Ela encheu um cesto com todas as velas e potes de vidro que achou. Depois pegou as panelas mais brilhantes da avó — as de alumínio, que a avó areava até virarem quase espelho — e o espelho redondo do banheiro. "Dora, o que é isso tudo?", perguntou a avó. "Uma lâmpada nova", respondeu Dora. "Feita de pedacinhos." A avó olhou para a menina, olhou para o cesto e entendeu. Os joelhos dela doíam, mas ela segurou no corrimão e subiu atrás, um degrau de cada vez. Dora fez três viagens carregando as coisas. Na última, as pernas já tremiam no degrau noventa. Mas chegou. Lá em cima, a avó acendeu as velas e colocou cada uma dentro de um pote de vidro, para o vento não apagar. Dora juntou os potes num montinho no meio da sala da lâmpada. Depois pôs o espelho redondo atrás deles, e as panelas em volta, viradas para a janela. A luz das velas bateu no espelho. Bateu nas panelas. E voltou — mais forte, mais larga — saindo pela janela do farol direto para o mar. Ainda não era a lâmpada grande. Mas era uma luz que dava para ver. Dora não parou ali. Pegou uma das panelas maiores e começou a virá-la devagar, de um lado para o outro, para a luz piscar, igualzinho ao farol de verdade quando gira. Acende, apaga. Acende, apaga. Lá embaixo, no meio da neblina, a buzina tocou de novo: FÓÓM, FÓÓM! Duas vezes. Mais perto. Dora continuou virando a panela até os braços doerem. Quando cansou, a avó segurou um pouco. Depois Dora de novo. Acende, apaga. Acende, apaga. E então, pela janela, elas viram duas luzinhas vermelhas aparecendo no branco: o barco do Seu Joca, entrando devagarinho na enseada, bem no caminho certo, longe das pedras. Dora deu um grito de alegria que ecoou pela escada inteira. Pouco depois, Seu Joca e o filho bateram na porta, molhados de neblina, com um balde cheio de peixe. "Quem acendeu o farol?", perguntou ele. A avó apontou para Dora, que tinha cera de vela nos dedos e uma panela debaixo do braço. Na manhã seguinte, o avô voltou com o vidro novo. Ouviu a história toda, subiu os cento e dois degraus e encontrou as velas apagadas, o espelho e as panelas ainda arrumados em volta da lâmpada quebrada. Ele ficou um tempão olhando. Depois pegou a panela mais brilhante, pendurou num prego ao lado da lâmpada nova e disse: "Esta fica aqui. Para o caso de a gente precisar de uma luz feita de pedacinhos outra vez." Naquela noite, a lâmpada grande girou de novo sobre o mar. E Dora dormiu ouvindo as ondas, sabendo que o farol tinha duas luzes agora: a do vidro novo e a da ideia dela.

Para conversar
Dora transformou panelas e um espelho numa luz para o mar. Que coisa comum da sua casa você acha que poderia virar outra coisa, se alguém usasse a imaginação?
Esta história também fala deCoragemResponsabilidade
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