
Era uma vez um reino de telhados azuis, onde todo ano, no fim do verão, acontecia a Festa das Lanternas. Naquela noite, o castelo inteiro se enchia de luzinhas coloridas, e a princesa Íris ia dançar pela primeira vez na frente de todo mundo. Íris ensaiava todas as tardes no jardim. E todas as tardes, para chegar ao jardim, passava correndo pelo portão de ferro, onde ficava o guarda mais velho do castelo: seu Anselmo, de bigode branco e capacete um pouco grande demais. "Boa tarde, seu Anselmo!", ela gritava, sem parar. "Boa tarde, princesa", ele respondia. Um dia, enquanto passava correndo, Íris viu uma coisa diferente. Seu Anselmo segurava um envelope. Virava para um lado, virava para o outro, aproximava do nariz, afastava. Depois suspirava e guardava o envelope no bolso do casaco. Íris diminuiu o passo. Mas o ensaio já ia começar, e a professora de dança não gostava de atraso. Ela seguiu em frente. No jardim, enquanto girava, ficava pensando no envelope. No dia seguinte, a mesma coisa. Seu Anselmo com o envelope na mão, os olhos apertados, o suspiro comprido. E, no outro dia, de novo. No quarto dia, Íris parou de verdade. Sentou no banquinho de pedra ao lado do portão e balançou as pernas. "Seu Anselmo, essa carta é de quem?" O guarda ficou vermelho. "É da minha filha, Rosa. Ela mora do outro lado do mar." "E o que ela diz?" Seu Anselmo olhou para o chão. Ficou quieto um tempo. Depois falou bem baixinho: "Não sei, princesa. Meus olhos ficaram embaçados com a idade. As letras viraram formiguinhas. E eu tenho vergonha de pedir para alguém ler." Íris sentiu um aperto no peito. Imaginou como seria ter uma carta de alguém que ela amava guardada no bolso, dias e dias, sem conseguir saber o que estava escrito. Ela não riu. Não chamou mais ninguém. Só chegou um pouquinho mais perto e cochichou: "Se o senhor quiser, eu leio baixinho. Só para nós dois." Seu Anselmo pensou um pouco. Depois tirou o envelope do bolso e entregou. Íris abriu com cuidado. A letra era redondinha. "Querido papai", ela leu. "Aqui está tudo bem. O meu jardim deu as primeiras rosas e eu lembrei do senhor..." Enquanto Íris lia, o rosto do guarda foi mudando. O bigode tremeu. Os olhos se encheram d'água, mas ele sorria. No fim da carta havia uma pergunta: "O senhor vai me escrever de volta? O navio do correio sai amanhã cedo." Seu Anselmo baixou a cabeça de novo. Ler já era difícil. Escrever, então... Íris olhou para o céu. O sol já estava baixo. Era véspera da Festa das Lanternas, e aquele era o último ensaio. A professora estava esperando. A dança ainda tinha um giro que não saía direito. Ela olhou para o jardim. Depois olhou para seu Anselmo. E correu — mas não para o jardim. Correu até a sala de estudos, pegou papel, pena e tinta, e voltou correndo para o banquinho. "O senhor fala, e eu escrevo", disse ela, ofegante. E assim foi. Seu Anselmo falou do portão, dos passarinhos que faziam ninho no telhado da guarita, da saudade. Íris escreveu tudo, devagar, com a letra mais caprichada que conseguiu. Quando acabou, o céu já estava cor de laranja, e o ensaio tinha terminado sem ela. Na noite seguinte, na Festa das Lanternas, Íris dançou. No meio da dança, o tal giro difícil saiu meio torto, e ela quase tropeçou. Algumas pessoas cochicharam. Mas, lá no fundo do salão, perto da porta, um guarda de bigode branco bateu palmas mais alto que todo mundo. Semanas depois, chegou outra carta. E outra. Toda vez, Íris sentava no banquinho e lia baixinho, só para os dois. Toda vez, ela escrevia a resposta. Até que uma carta dizia: "Papai, no próximo verão eu vou visitar o senhor." E, no verão seguinte, quando as lanternas foram acesas de novo, havia uma moça de chapéu de flores ao lado do portão, de braço dado com seu Anselmo. Ela se abaixou na frente de Íris e disse: "Então você é a princesa das cartas." Naquela noite, as lanternas balançavam no vento, a música tocava, e Íris dançou de novo. Dessa vez o giro saiu certinho. Mas ela achou que a parte mais bonita da festa foi ver seu Anselmo e Rosa olhando juntos para o céu cheio de luzinhas.