
Era uma vez, numa mata cheia de araucárias, uma cutia filhote chamada Lelê. Ela tinha o pelo cor de caramelo, as perninhas finas e rápidas e um focinho que vivia farejando tudo. Lelê adorava pinhão. Achava que não havia comida mais gostosa no mundo inteiro. Era outono, e os pinhões caíam das araucárias fazendo tum, tum, tum no chão. Todos os bichos da mata estavam ocupados, guardando comida para os dias frios que estavam chegando. Nos galhos mais altos morava Dona Azulina, uma gralha-azul de penas brilhantes como o céu de manhã. Dona Azulina tinha um costume: pegava os pinhões com o bico e enterrava cada um num lugar diferente, para comer depois. Ela tinha três filhotes no ninho, e todo pinhão escondido era um jantar garantido para eles. Uma tarde, Lelê estava cavando perto de uma pedra coberta de musgo quando sentiu um cheirinho conhecido. Cavou mais um pouco e... lá estavam! Um montinho de pinhões, gordos e marrons, todos juntinhos debaixo da terra. — Que sorte! — pensou Lelê, com o coração pulando. Ela comeu um. Depois outro. Depois mais outro. Estavam tão bons que ela nem parou para pensar de onde tinham vindo. Quando a barriga ficou redondinha, sobraram só quatro pinhões no buraco. Foi aí que Lelê reparou numa peninha azul, presa na terra bem do lado do buraco. Ela parou de mastigar. Uma peninha azul. Só uma ave na mata tinha penas daquela cor. Lelê engoliu devagar. Aqueles pinhões não eram um tesouro perdido. Eram de Dona Azulina. Nessa hora, ouviu um bater de asas. Dona Azulina pousou na pedra de musgo, olhando para os lados, preocupada. — Lelê, você viu alguém mexendo por aqui? Eu enterrei meus pinhões perto desta pedra, mas não estou achando o lugar. Meus filhotes estão com fome. Lelê sentiu as orelhas esquentarem. A cabeça dela começou a inventar desculpas bem depressa. Podia dizer que tinha sido o vento. Ou a chuva da noite passada. Ou o quati, que vivia fuçando tudo. Dona Azulina nunca ia saber. Ela abriu a boca para falar do quati. Mas olhou para Dona Azulina, que piscava os olhinhos escuros, cansada de tanto procurar. E lembrou dos três filhotes esperando no ninho, com os biquinhos abertos. Lelê fechou a boca. Respirou fundo. Depois deu um passo para o lado e mostrou o buraco. — Fui eu, Dona Azulina — disse, com a voz bem baixinha. — Eu achei os pinhões e comi quase todos. Não sabia que eram seus... mas depois vi a sua pena. Desculpa. Só sobraram quatro. Dona Azulina ficou quieta por um momento. Olhou para o buraco, olhou para Lelê, que tremia um pouquinho da ponta do rabo até o focinho. — Obrigada por me contar — disse a gralha, por fim. — Não deve ter sido fácil. — Eu quero ajudar — falou Lelê, depressa. — Eu sou boa em achar pinhão. Sou a melhor farejadora da mata! E foi mesmo. Pelo resto da tarde, Lelê correu de araucária em araucária, farejando o chão, enquanto Dona Azulina voava por cima mostrando os lugares. Lelê achava os pinhões caídos no meio das folhas e levava um por um até a pedra de musgo. Quando o sol começou a se pôr, o montinho estava maior do que antes. — Agora tem jantar para os filhotes e ainda sobra — disse Dona Azulina, com as penas todas arrepiadas de contente. Ela pegou alguns pinhões para levar ao ninho. Depois, com o bico, empurrou dois pinhões para perto de Lelê. — Esses são seus. Mas tenho uma ideia melhor ainda: vamos enterrar estes outros dois juntas, bem fundo, e esquecer onde foi. — Esquecer? Por quê? — perguntou Lelê. — Porque um pinhão esquecido debaixo da terra vira uma araucária — explicou a gralha. — Daqui a muitos anos, ela vai dar pinhões para os seus netos e para os meus. Então as duas cavaram um buraquinho, colocaram os pinhões lá dentro e cobriram com terra fofa. Lelê bateu a terra com as patinhas, bem de leve. A noite chegou devagar, e as estrelas apareceram entre os galhos das araucárias. Lá no alto, Dona Azulina dava o jantar aos filhotes. Lá embaixo, Lelê se enrolou na toca, com a barriga cheia e o coração leve, leve como uma pena azul.