
Era uma vez, numa pequena cidade do interior de São Paulo chamada Brodowski, um menino chamado Candinho. Ele morava numa casa simples, junto com o pai, a mãe e uma porção de irmãos. Em volta da cidade, os cafezais se espalhavam pelos morros, verdes de dia e azulados de tardinha. E a terra ali era de um vermelho tão forte que deixava os pés das crianças cor de tijolo. Candinho gostava de jogar bola, de subir em árvore e de correr atrás dos irmãos. Mas, mais do que tudo, gostava de desenhar. Desenhava com carvão no papel de embrulhar pão. Desenhava com graveto na terra do quintal. Desenhava os amigos, os passarinhos, os espantalhos do cafezal e o circo que, de vez em quando, aparecia na cidade. Só que Candinho tinha um sonho que parecia grande demais: queria pintar com cores. Ele tinha visto, na vitrine da venda, uma caixinha de tintas, mas ela custava mais do que a família podia gastar. Em casa, o dinheiro era para o feijão, o arroz e os sapatos que passavam de um irmão para o outro. O aniversário da mãe estava chegando. Candinho queria dar a ela um presente bonito: um quadro colorido do quintal da casa, com as galinhas, o varal e o pé de mamão. Mas como pintar sem tinta? Ele se sentou no degrau da porta, com o queixo na mão, olhando para o chão. E o chão olhou de volta para ele: vermelho, vermelhinho. Candinho deu um pulo. Pegou um punhado de terra, misturou com um pouco de água numa latinha e passou o dedo num pedaço de tábua. Ficou uma mancha vermelha! Ele riu sozinho. Começou então uma grande caçada às cores. O carvão frio do fogão, já apagado, dava o preto. Um toquinho de giz que a professora lhe deu, raspado com cuidado, dava o branco. As flores amarelas do mato, amassadas, deixavam um amarelo clarinho. O pó do café, misturado com água, virava um marrom quente. E as folhas verdes, esfregadas com força, manchavam a tábua de verde. Candinho pintou o quintal inteiro na tábua. Ficou orgulhoso. Deixou o quadro secar no sol e foi jantar. No dia seguinte, correu para ver. Mas que tristeza! A tinta de terra tinha secado e virado pó. Quando ele encostou o dedo, as cores se soltavam e caíam como farelo. O pé de mamão quase sumiu. Candinho sentiu vontade de chorar. Pensou em desistir e voltar só para o carvão. Foi quando viu a mãe preparando um bolo. Ela quebrou um ovo numa tigela, e a gema escorregou, amarela, grudenta, brilhante. A mãe mexia, e a massa ficava toda grudadinha. Candinho arregalou os olhos. — Mãe, posso ficar com uma gema? A mãe achou estranho, mas deu. Candinho misturou a gema com a terra vermelha, mexeu com um graveto e passou na tábua. Esperou secar. Depois esfregou o dedo... e a cor ficou firme, no lugar, com um brilho bonito! Ele fez o mesmo com cada cor. Separou tampinhas de garrafa para servirem de potinhos. Fez pincéis amarrando num graveto uns fiozinhos do rabo do cavalo do vizinho, que deixou ele pegar. E pintou de novo o quintal, com calma: a galinha pintadinha, o varal com os lençóis, o pé de mamão cheio de frutas e até a mãe, de avental, na porta da cozinha. No dia do aniversário, Candinho entregou a tábua embrulhada num pano. A mãe abriu e ficou quieta. Depois passou o dedo, bem de leve, na figura de avental. — Essa sou eu? — É, mãe. Pintei com a terra do nosso quintal. A mãe pendurou o quadro na parede da sala, bem no lugar onde batia a luz da tarde. Os irmãos vieram ver. Os vizinhos vieram ver. Até o dono da venda veio ver, e disse que nunca tinha visto um quadro feito de terra e ovo. Aquele menino cresceu e nunca parou de pintar. Pintou cafezais, crianças brincando, espantalhos e circos, e seus quadros viajaram para muitos lugares do mundo. Mas, naquela noite em Brodowski, ele só sabia de uma coisa: dormia numa casa onde a parede tinha cores. E fechou os olhos ouvindo os grilos do cafezal.