
Era uma vez um menino chamado Caio que tinha um segredo que todo mundo do bairro conhecia: ele era o Trovão. Quando Caio vestia sua capa azul, com um raio amarelo costurado pela vovó, e batia as duas mãos, saía um barulho enorme, BRUUUM, que fazia as janelas tremerem e os passarinhos levantarem voo. O Trovão usava esse poder para ajudar. Uma vez, quando a bola do Juca ficou presa no alto da mangueira, ele bateu palmas e, BRUUUM, a árvore balançou e a bola caiu. Outra vez, quando um caminhão estava dando ré sem ver o carrinho de pipoca, o Trovão bateu palmas e o motorista parou na hora. O pipoqueiro deu a ele um saquinho de pipoca de graça. Num sábado, uma família nova se mudou para a casa amarela da esquina. Tinha uma menina de tranças chamada Lia, que segurava um coelho de pano pela orelha. Caio quis fazer uma boa impressão. Foi até a praça, onde as crianças brincavam e os pais conversavam sentados nos bancos, e chamou: — Ei, gente! Olha só o que o Trovão sabe fazer! — Juntou as mãos com toda a força e, BRUUUUUUM, fez o maior trovão de toda a vida dele. As crianças gritaram de alegria. Mas Lia não. Lia deixou o coelho cair, tapou as orelhas e correu para trás do escorregador, tremendo. Começou a chorar baixinho. Alguns meninos riram. — Ela tem medo de barulho! Caio ficou parado. Ele esperava aplausos, não choro. Primeiro sentiu uma coisa esquisita, meio vergonha, meio irritação. Mas foi só um barulho, pensou. Nem dói. Aí ele olhou de novo para Lia, encolhidinha, com os olhos apertados. E se lembrou de uma coisa que quase ninguém sabia: o Trovão tinha medo do escuro. Quando a luz do quarto apagava, o coração de Caio também batia assim, rápido, e ele também queria se esconder. Ninguém ria dele, porque a mamãe sempre deixava uma luzinha acesa e se sentava na beira da cama. Caio pegou o coelho de pano do chão, bateu a poeira e foi até o escorregador. Não bateu palmas. Não disse que era bobagem. Só se agachou, bem devagar, e estendeu o coelho. — Desculpa, Lia. Eu não sabia que barulho alto te assustava. Lia pegou o coelho e apertou contra o peito. Não disse nada. Caio se sentou do lado dela, quietinho, e ficou ali. Às vezes, ajudar é só ficar perto. Foi então que o céu escureceu de verdade. Nuvens cinzentas e gordas chegaram depressa, e lá longe um trovão de verdade roncou: bruuum. Lia se encolheu ainda mais. Os pais começaram a chamar as crianças para casa. O pai de Lia já vinha atravessando a praça com um guarda-chuva. Mas Lia estava travada, sem conseguir sair dali. Caio pensou rápido. Tirou a capa azul e colocou em volta dos ombros dela, cobrindo também as orelhinhas. — Sabia que dá para saber se o trovão está longe? — perguntou baixinho. — Quando o céu pisca, a gente conta. Quanto mais a gente conta, mais longe ele está. O céu piscou. — Um... dois... três... quatro... cinco... — contaram juntos. Bruuum, bem fraquinho. — Viu? Bem longe — disse Caio. Então ele fez uma coisa que nunca tinha feito. Bateu as mãos devagarinho, quase sem força. E em vez de BRUUUM, saiu um tum, tum, tum, macio como um tambor de brinquedo. Lia abriu um olho. Caio bateu de novo, no ritmo da chuva que começava: tum-tum, tum-tum. Um cantinho da boca de Lia subiu. Quando o pai dela chegou, Lia segurou a mão dele e, antes de ir, devolveu a capa para Caio. — Faz o tambor de novo amanhã? — pediu. Naquela noite, enquanto a chuva caía mansa no telhado, Caio ficou pensando em como o seu poder podia ser grande ou pequeno, dependendo de quem estava perto. No dia seguinte, apareceu na janela da casa amarela um desenho pregado no vidro: um menino de capa azul e uma menina de tranças, os dois sorrindo, e em volta deles um montão de tum-tum-tum desenhado com lápis de cor.