
Era uma vez, num pasto cheio de cupinzeiros e ipês, um joão-de-barro jovem chamado Juca. Era a primeira primavera em que ele ia construir a própria casa. Juca tinha visto o pai e a mãe fazendo o ninho deles, bolinha por bolinha de barro, e achava aquilo a coisa mais bonita do mundo. — Este ano é a minha vez — ele cantou, todo animado, batendo as asas. Juca escolheu um galho fininho, bem na ponta de uma goiabeira, porque de lá dava para ver o pôr do sol inteirinho. Voou até a beira do riacho, pegou um bocadinho de barro no bico e voltou. E voou de novo. E de novo. Cem vezes. Duzentas vezes. Depois de muitos dias, a casinha estava quase pronta, redondinha como um forno. Mas numa tarde o céu ficou cinza. Um vento forte balançou a goiabeira de um lado para o outro, e veio uma chuva grossa, daquelas que fazem barulho no telhado. O galho fininho envergou. A casinha de Juca rachou ao meio, e metade caiu no chão, desmanchando na lama. Quando a chuva passou, Juca desceu e olhou os pedaços de barro espalhados na grama. Ficou um tempão quieto, com as penas murchas. Clarinha, uma joão-de-barro que morava no ipê do lado, pousou perto dele. Não disse nada. Só ficou ali, fazendo companhia, até o sol aparecer de novo. No dia seguinte, Juca voltou a trabalhar. Voou até o riacho, pegou barro, voltou para o mesmo galho fininho e começou tudo de novo, bem depressa, para recuperar o tempo perdido. Mas, três dias depois, veio outra chuva. O galho envergou outra vez. E a casinha caiu outra vez. Dessa vez, Juca não ficou só triste. Ficou pensativo. Pousou num cupinzeiro e olhou bem para os ninhos que tinham ficado de pé. O do pai estava num galho grosso, perto do tronco. O de Clarinha também. E ele reparou numa coisa que nunca tinha notado: nos ninhos que aguentavam a chuva, o barro tinha fiozinhos de capim misturados, como uma trança escondida dentro da parede. — Como você sabia disso? — perguntou Juca para Clarinha. — Minha casa caiu duas vezes no ano passado — ela respondeu, rindo. Juca arregalou os olhos. Até a casa de Clarinha já tinha caído! Então ele recomeçou, mas de um jeito novo. Escolheu um galho grosso do ipê, firme, pertinho do tronco. De lá não dava para ver o pôr do sol inteirinho, só um pedaço. Tudo bem. Em cada bocado de barro, Juca misturava um fiapo de capim seco. Apertava com o bico, alisava com o peito, esperava secar um pouco antes de colocar a camada seguinte. Era mais lento. Muito mais lento. Os dias passaram. Quando a parede estava subindo, uma chuva fininha levou uma pontinha da borda. Juca olhou, respirou fundo, foi buscar mais barro e consertou aquele pedacinho. Só aquele pedacinho. O resto estava firme. Por fim, ele fez a parte mais bonita: uma paredinha por dentro, como um corredor, para o vento não entrar direto no quartinho. E virou a porta para o lado contrário de onde vinham as chuvas. Numa noite, o céu roncou forte. Os relâmpagos clareavam o pasto inteiro, e a chuva caiu sem parar. O ipê balançou. Juca se encolheu lá dentro do ninho novo, esperando ouvir o barulho de barro rachando. Mas não ouviu nada. Só o tamborilar da chuva lá fora, toc, toc, toc, e o vento passando do lado de fora sem conseguir entrar. A casinha não se mexeu. De manhã, Juca saiu na porta e cantou tão alto que os passarinhos da goiabeira olharam. Lá embaixo, o pasto estava molhado e brilhante. Na grama ainda dava para ver os restinhos das duas primeiras casas, já virando terra outra vez. Juca olhou para eles e não ficou triste. Cada um tinha ensinado alguma coisa. E naquela noite, quando o sol foi embora, ele se aninhou no quartinho seco e quentinho, ouvindo Clarinha cantar baixinho no ipê do lado, e dormiu feliz dentro da casa que tinha aprendido a fazer.