
Era uma vez um menino chamado Caio que estudava numa escola com um peixinho na sala. O peixinho era azul e vermelho, com uma cauda que parecia um véu, e se chamava Seu Bolha. Toda sexta-feira, uma criança da turma levava Seu Bolha para casa no fim de semana. E naquela sexta-feira, finalmente, era a vez de Caio. A professora Lu entregou o aquário redondo, um potinho de ração e uma garrafa de água. — Essa água já está descansada, pronta para o Seu Bolha — ela explicou. — E aqui tem um cartãozinho com tudo o que ele precisa. No cartão havia três desenhos: uma pitadinha de ração de manhã, uma pitadinha de noite e um sol com um risco em cima, que queria dizer longe do sol. Caio levou o aquário no colo, dentro do carro, com as duas mãos, bem devagar, para a água não balançar. Em casa, colocou Seu Bolha em cima da cômoda do quarto. Deu a pitadinha da noite e ficou olhando o peixinho comer. Dormiu sorrindo. No sábado de manhã, Caio acordou com a casa cheia de barulho. Era aniversário da prima Bia, e a festa ia ser no quintal da vovó, ali do lado. Caio pensou: 'O Seu Bolha deve ficar entediado aqui dentro. Vou deixar ele ver o dia bonito.' E colocou o aquário no parapeito da janela, onde batia um solzão. Deu a pitadinha da manhã e saiu correndo para a festa. Teve pula-pula, bolo de chocolate e pescaria de papel. Caio brincou tanto que esqueceu de tudo. Quando voltou, no fim da tarde, foi direto para o quarto. O vidro do aquário estava quente. A água estava morna. E Seu Bolha estava parado lá embaixo, quietinho, mexendo só um pouquinho as nadadeiras. O coração de Caio disparou. Ele olhou o cartão em cima da cômoda. O sol com o risco em cima parecia olhar para ele. Por um segundo, Caio pensou em fechar a porta e fingir que não tinha visto. Mas então pegou o aquário com cuidado e foi até a cozinha. — Mãe! O Seu Bolha ficou no sol, e fui eu que deixei! A mãe veio na mesma hora. Juntos, colocaram o aquário no canto mais fresquinho da casa, longe da janela. A mãe mostrou como tirar um pouco da água morna com uma caneca e completar devagarinho com a água descansada da garrafa da professora. Um pouquinho de cada vez, para o peixinho não levar susto. Caio ficou sentado no chão, olhando. Não quis ir ver a prima abrir os presentes. Não quis assistir desenho. Ficou ali, de olho no Seu Bolha. Devagar, muito devagar, o peixinho começou a subir. Deu uma voltinha. Depois outra. E abriu a cauda de véu como quem se espreguiça. Caio soltou o ar que nem sabia que estava segurando. No domingo, Caio acordou e, antes de qualquer coisa, antes até do café, foi ver o Seu Bolha. Deu a pitadinha da manhã. Conferiu se o aquário continuava na sombra. Depois desenhou, numa folha, um relógio com duas setas: uma apontando para o sol nascendo e outra para a lua. E colou do lado do aquário. Quando o pai chamou para jogar videogame, ele respondeu: — Só depois de dar a comida da noite. Na segunda-feira, Caio entregou o aquário para a professora Lu. Seu Bolha nadava todo animado. Caio poderia não dizer nada. Ninguém ia saber. Mas ele contou tudo: a janela, a festa, a água morna, a caneca. A professora ouviu com atenção. — E o que você fez quando viu? — ela perguntou. Caio explicou direitinho. A professora sorriu, pegou o relógio de papel e colou bem ao lado do cartãozinho. — Assim a próxima criança vai lembrar também — ela disse. Naquela noite, já em casa, Caio olhou para o canto vazio da cômoda e sentiu uma saudadezinha. Depois fechou os olhos e imaginou Seu Bolha dando voltinhas na sala escura da escola, com a cauda aberta, tranquilo. E dormiu.