
Era uma vez uma vila de ruas de pedra, com casinhas tortas e telhados vermelhos, onde à noite tudo ficava escuro como dentro de um bolso. Nessa vila morava Nina, uma menina de cinco anos que não gostava nem um pouquinho do escuro. Toda tarde, quando o céu começava a ficar roxo, Nina corria para a janela e ficava esperando. Porque, um por um, os lampiões da rua se acendiam. Primeiro o da esquina. Depois o da padaria. Depois o da fonte. Até que a rua inteira ficava dourada, e Nina conseguia dormir. Durante muito tempo, Nina achou que os lampiões acendiam sozinhos, como estrelas. Até que, numa tarde, ela ficou na janela mais tempo que de costume e viu um velhinho de casaco comprido, com uma escada no ombro e uma vara bem longa na mão. Ele encostava a escada no poste, subia devagar, acendia a luz, descia e ia para o próximo. — Vó, quem é aquele? — perguntou Nina. — É o Seu Tobias, o acendedor de lampiões. Faz isso todas as noites, há mais de quarenta anos. Nina ficou de boca aberta. Todas as noites! Mesmo quando chovia, mesmo quando fazia frio. E ninguém na rua olhava para ele. As pessoas passavam apressadas, com as cestas de pão e os guarda-chuvas, e Seu Tobias subia e descia a escada sozinho, em silêncio. Na manhã seguinte, Nina contou para os amigos da praça. — Sabe as luzes da rua? Tem um vovô que acende uma por uma! Ninguém sabia. Juntos, ficaram pensando no que fazer. Léo quis dar um bolo. Mariana quis fazer uma festa. Mas Nina tinha reparado numa coisa lá da janela: o casaco de Seu Tobias tinha um rasgo no ombro, bem onde a escada encostava, e ele andava encolhido de frio. Então Nina pediu à vó para ensinar a fazer tricô. Os dedos dela eram pequenos, e as agulhas escorregavam. A primeira carreira ficou toda torta. A segunda, cheia de buracos. Nina desmanchou e começou de novo. Os amigos trouxeram restos de lã de casa: um novelo azul, um amarelo, um vermelho. O cachecol foi ficando colorido, listrado, meio torto num canto, mas quentinho. Levou duas semanas. Enquanto isso, as crianças combinaram outra coisa. No fim da tarde de sexta-feira, cada uma ia ficar perto de um poste da rua, com o pai, a mãe ou a avó. Na sexta, o céu ficou roxo. Seu Tobias apareceu na esquina com a escada no ombro. Encostou no primeiro poste, subiu, acendeu. Quando desceu, ouviu uma voz pequenininha: — Obrigado, Seu Tobias! Era Léo, de mãos dadas com o pai. Seu Tobias piscou, surpreso. Foi para o poste da padaria. Acendeu. E ouviu: — Obrigada pela luz! Era Mariana. No poste da fonte havia mais duas crianças. No da igreja, mais três. A rua inteira, poste por poste, ia ganhando luz e ganhando vozes. O último poste era o da casa de Nina. Seu Tobias acendeu, desceu a escada devagar, e lá estava Nina, com a vó, segurando um embrulho de papel pardo. — É para o senhor não sentir frio lá em cima. Seu Tobias abriu o embrulho. Viu o cachecol listrado, com um cantinho torto. Ficou um tempo sem falar. Depois enrolou o cachecol no pescoço, bem devagar, e os olhos dele brilharam mais que o lampião. — Faz quarenta anos que acendo essas luzes — ele disse, baixinho. — E hoje foi a primeira vez que alguém acendeu uma luz para mim. A partir daquela noite, as coisas mudaram um pouco na vila. O padeiro passou a guardar um pãozinho quente para Seu Tobias. O alfaiate costurou o rasgo do casaco. E as pessoas, quando passavam por ele, levantavam a mão e diziam boa noite. Nina continuou indo para a janela toda tarde. Mas agora ela não esperava só as luzes. Esperava um velhinho de cachecol colorido, que, ao acender o poste da casa dela, sempre olhava para cima e acenava. E Nina acenava de volta e depois ia dormir, com a rua toda dourada lá fora e o escuro já não parecendo tão escuro assim.