
Era uma vez, numa cidade cheia de prédios e praças, um menino chamado Rocha que tinha um superpoder: ele era forte, muito, muito forte. Rocha conseguia levantar um ônibus com uma mão só. Conseguia segurar uma árvore que estava caindo. Uma vez, empurrou um caminhão atolado como quem empurra um carrinho de brinquedo. Todo mundo na cidade conhecia Rocha. E Rocha achava que não existia problema no mundo que a força dele não resolvesse. Numa tarde de domingo, Rocha passeava pela praça quando ouviu um choro fininho. Miau. Miau. Vinha de dentro de um cano comprido de metal, desses que ficam deitados na grama esperando a obra. Rocha se abaixou e olhou lá dentro. Bem no meio do cano, apertadinho, havia um gatinho cinza com os olhos arregalados. — Pode deixar comigo! — disse Rocha, estufando o peito. As pessoas foram chegando para olhar. Rocha segurou o cano e começou a sacudir, para o gatinho escorregar para fora. Mas o gatinho miou mais alto e se agarrou lá dentro com as unhas, assustado. — Então eu vou entortar o cano! — disse Rocha. Um senhor da obra levantou a mão. — Cuidado, Rocha. Se você apertar o cano, ele amassa bem no meio, onde o gatinho está. Rocha parou. Coçou a cabeça. Pensou em enfiar o braço lá dentro, mas o braço dele era grosso demais e não entrava nem até a metade. Pela primeira vez, Rocha não sabia o que fazer. As bochechas dele ficaram vermelhas. Todo mundo estava olhando. Foi então que uma menina pequena, de tranças, que estava sentada no banco com a mãe, se aproximou. Era Bia. Ela não tinha superpoder nenhum. Mas tinha um gato em casa. — Posso falar uma coisa? — ela perguntou, baixinho. Rocha olhou para ela. Uma parte dele queria dizer 'não precisa, eu resolvo'. Mas ele olhou para o gatinho tremendo lá dentro e respirou fundo. — Pode. Eu não sei como tirar ele dali. Bia explicou que gato assustado não sai quando tem barulho e gente em volta. Sai quando fica calmo. E que gatinhos adoram cheiro de peixe. A mãe de Bia tinha um sanduíche de atum na bolsa. Bia pegou um pedacinho e colocou bem na boca do cano. Depois pediu para todo mundo dar uns passos para trás e falar baixinho. — E você, Rocha — disse Bia —, segura o cano bem paradinho, para ele não balançar. Paradinho como uma pedra. Rocha nunca tinha recebido uma tarefa assim. Ninguém nunca tinha pedido para ele ficar parado. Mas ele se ajoelhou na grama e segurou o cano com as duas mãos, firme, sem mexer nem um tiquinho. Era mais difícil do que levantar um ônibus. O braço formigava. O nariz coçava. Mas ele não se mexeu. Bia se deitou na grama e começou a falar com o gatinho, bem devagar: — Vem, bichinho. Ninguém vai te fazer mal. Tem comidinha aqui. O tempo passou. A praça ficou silenciosa. Um passarinho cantou longe. E então, de dentro do cano, apareceu um focinho cor-de-rosa. Depois dois bigodes. Depois uma patinha. O gatinho farejou o atum, deu mais um passo e saiu, comendo o pedacinho como se nada tivesse acontecido. Bia pegou o gatinho no colo, com cuidado. As pessoas bateram palmas bem baixinho, para não assustar ninguém. Rocha soltou o cano e olhou para as próprias mãos. Depois olhou para Bia. — Obrigado por me ensinar — ele disse. — Eu achava que força resolvia tudo. — Mas foi você que segurou o cano parado — respondeu Bia, sorrindo. — Sem isso, ele não ia sair. O gatinho não tinha dono, e a mãe de Bia deixou que ele fosse morar com elas. Bia deu a ele o nome de Pedrinha, em homenagem a Rocha. Naquela noite, Rocha voltou para casa caminhando devagar, olhando as luzes da cidade se acendendo. Pensou em quantas coisas ele ainda não sabia fazer. E, em vez de ficar chateado, sentiu uma coisa boa por dentro: vontade de aprender. Antes de dormir, decidiu que no dia seguinte ia perguntar para Bia como se cuida de um gato.