
Era uma vez, numa cidade de casas coloridas e ruas de paralelepípedo, uma menina chamada Garoa. Garoa tinha sete anos, uma capa azul-clarinha e um poder muito especial: quando ela juntava as mãos, soprava devagar entre os dedos e abria as palmas, nascia uma nuvenzinha de chuva. Pelo menos, era assim que devia funcionar. Naquele verão, fazia um calor danado. O sol batia forte todos os dias, e a horta comunitária da praça, onde os vizinhos plantavam alface, tomate e girassol, estava ficando murcha. A torneira da praça tinha quebrado, e o conserto só viria na semana seguinte. E no sábado ia ter a Festa da Colheita, a festa mais esperada do bairro. — Deixa comigo! — disse Garoa, ajeitando a capa. — Eu vou fazer chover na horta! Seu Antônio, o velhinho que cuidava da horta, coçou o bigode branco. — Vai ser uma ajuda e tanto, menina. Garoa juntou as mãos, soprou e abriu. Puf! Saiu uma nuvenzinha do tamanho de um algodão. Ela subiu, subiu... e espirrou. Atchim! Três gotinhas caíram em cima de uma formiga, e a nuvem sumiu. Algumas crianças que estavam olhando riram. Garoa ficou com as bochechas vermelhas. Tentou de novo. Desta vez soprou com toda a força. Fuuuuuu! Saiu uma nuvem gorda e escura, que voou torta, passou por cima da horta e despejou um baldão de água bem em cima da mesa onde Dona Cida arrumava os bolos da festa. Splash! — Ai, meu bolo de fubá! — exclamou Dona Cida. Garoa correu para casa, tirou a capa e se jogou na cama. — Meu poder é bobo — resmungou para o travesseiro. — Não dá certo nunca. Ela ficou ali um tempão, olhando o teto. Depois foi até a janela. Lá embaixo, na praça, Seu Antônio carregava um regador pequenininho, indo e voltando da casa dele até a horta. Ele andava devagar, porque as pernas já estavam cansadas, mas não parava. Um regador. Depois outro. Depois outro. Garoa ficou olhando. Seu Antônio não fazia uma chuvarada. Fazia um pouquinho de cada vez. Ela vestiu a capa de novo. No dia seguinte, Garoa foi para o quintal treinar. Juntou as mãos e soprou bem devagarinho, como quem sopra uma vela de aniversário sem querer apagar. Saiu uma nuvenzinha pequena. Ela não espirrou. Garoa soprou outra. E outra. Algumas sumiam. Algumas voavam para o lado errado. Uma choveu no gato, que saiu correndo, ofendido. Garoa riu e tentou mais uma vez. Na quinta-feira, ela conseguia fazer cinco nuvenzinhas de uma vez. Na sexta, conseguia fazer as cinco ficarem juntas, de mãos dadas, como uma fila de patinhos. Então chegou o sábado. O sol estava ainda mais quente. As folhas de alface estavam deitadas no chão, cansadas. Os girassóis tinham abaixado a cabeça. As pessoas já estavam chegando para a festa, e Seu Antônio olhava a horta com cara triste. Garoa respirou fundo. Seu coração batia rápido. E se espirrasse de novo? E se molhasse os bolos? E se todo mundo risse? Ela juntou as mãos. Soprou devagar. Uma nuvenzinha. Ela tremeu... e sumiu. Algumas pessoas olharam. Garoa fechou os olhos, contou até três e tentou de novo. Uma nuvenzinha. Duas. Três. Cinco. Dez. Elas foram subindo, uma do lado da outra, até cobrir a horta inteira como um cobertor macio e cinzento. E então, devagarinho, começou a chover. Não uma chuvarada. Uma garoa fininha, fresquinha, gostosa, que molhava cada folha sem amassar nenhuma. Os girassóis foram levantando a cabeça. As alfaces ficaram de pé. A terra soltou aquele cheiro bom de chão molhado. — Olha só! — disse Seu Antônio, com um sorriso enorme embaixo do bigode. As crianças que tinham rido na semana anterior agora batiam palmas. Dona Cida veio com um pedaço de bolo de fubá novinho, que ela tinha feito de novo, e entregou para Garoa. — Esse aqui está sequinho — disse ela, piscando. A festa durou até o fim da tarde. Quando o céu ficou cor de laranja e as primeiras estrelas apareceram, Garoa soprou uma última nuvenzinha, bem pequena, e deixou ela flutuando em cima dos girassóis, como quem dá boa-noite.