
Era uma vez uma menina chamada Joana, que morava num prédio amarelo de quatro andares, com um pátio no meio onde as crianças brincavam. Joana tinha um sonho: ser a maior tocadora de tambor do mundo inteiro. Ela não tinha um tambor de verdade. Mas tinha dois baldes virados de cabeça para baixo, uma panela velha que a vovó tinha dado e duas colheres de pau. E com isso, Joana fazia um barulho maravilhoso. Pum-pum-tá! Pum-pum-tá! Tum-tum-tum-TÁ! Todas as tardes, depois da escola, ela descia para o pátio e tocava. Os amigos dançavam. O cachorro do segundo andar latia junto. Era a melhor parte do dia. Até que, numa segunda-feira, Joana encontrou um bilhete colado na porta do prédio. A letra era tremida e caprichada: Por favor, silêncio no pátio de tarde. Obrigado. Seu Ivo, apartamento 3. Joana leu duas vezes e fez bico. — Silêncio de tarde? Que vizinho chato! — disse para a amiga Bia. — A tarde é a hora de brincar! No dia seguinte, ela tocou mesmo assim. Um pouquinho mais baixo, mas tocou. Pum-pum-tá. E logo a janela do apartamento 3 se abriu e se fechou de novo, bem devagar, sem ninguém aparecer. Joana sentiu uma coisa esquisita na barriga. Parou de tocar, mas ficou emburrada o resto da tarde. Na quinta-feira, bem cedinho, antes de o sol nascer direito, Joana acordou com sede. Foi até a cozinha e, pela janela, viu uma luz acesa lá embaixo, na rua. Era a padaria da esquina. E saindo dela, com um avental branco cheio de farinha e um saco de pães quentinhos nos braços, vinha um senhor de cabelo grisalho. Ele entrou no prédio dela. — Mãe — perguntou Joana no café da manhã —, quem é aquele moço que trabalha na padaria de madrugada? — Ah, é o Seu Ivo, do apartamento 3. Ele é padeiro. Trabalha a noite inteira fazendo o pão que a gente come de manhã. Por isso ele dorme de dia. Joana parou com o pão no meio do caminho até a boca. Olhou para o pão. Estava quentinho, macio, com a casquinha estalando. Tinha sido feito pelo Seu Ivo. Enquanto ela dormia. E ela, de tarde, tocava tambor bem embaixo da janela dele. Naquela tarde, Joana não desceu com os baldes. Desceu com uma cartolina, canetinhas e fita adesiva. Sentou no chão do pátio e escreveu com letras grandes e coloridas: SHHH! SEU IVO ESTÁ DORMINDO. ELE FAZ NOSSO PÃO! E desenhou um pão sorridente com um gorro de dormir. Ela colou o cartaz bem na entrada do pátio. Quando Bia e os outros amigos chegaram correndo e gritando, Joana colocou o dedo na frente da boca. — Psiu! Vamos brincar de outro jeito. — Mas e o tambor? — perguntou Bia. Joana pensou. Pensou mais. E então teve uma ideia. Subiu, pegou duas almofadas velhas e, com a ajuda da mãe, amarrou cada uma em cima de um balde. Bateu com a mão. Pof-pof-pof. Era um som baixinho, fofo, como um coração batendo. — Tambor de almofada! — riu Bia. Durante a semana inteira, as crianças inventaram brincadeiras silenciosas: estátua, mímica, desenho com giz. E quando Joana queria tocar alto de verdade, ia com a mãe até a pracinha, onde não tinha janela de ninguém por perto. No sábado de manhã, alguém bateu na porta da casa de Joana. Era Seu Ivo, sem o avental, com os olhos descansados e um saco de papel nas mãos. — Vi o seu cartaz — disse ele, com um sorriso tímido. — Faz muito tempo que eu não dormia tão bem. Isto é para você. Dentro do saco havia um pão redondinho, com duas varetinhas de massa cruzadas em cima. Era um pão em forma de tambor! E na tarde de domingo, quando Joana fez um show na pracinha, tocando os baldes com toda a força que tinha, lá na primeira fila, batendo palmas no ritmo, estava Seu Ivo. Naquela noite, antes de dormir, Joana olhou pela janela. A luz da padaria acabava de acender. Ela acenou, bem baixinho, para ninguém acordar.