
Era uma vez, na cidade de Jerusalém, uma menina chamada Rode. Ela trabalhava na casa de Maria, a mãe de um rapaz chamado João Marcos. Era uma casa grande, com um portão de madeira que dava para a rua, e Rode era quem cuidava desse portão. Quando alguém batia, era ela quem corria para ver quem era. Naqueles dias, a casa andava silenciosa e cheia de gente ao mesmo tempo. O rei Herodes tinha mandado prender Pedro, o amigo de Jesus, só porque ele falava de Jesus para todo mundo. Pedro estava trancado numa prisão, preso com correntes e vigiado por muitos soldados. Os amigos de Pedro estavam tristes. Mas, em vez de desistir, eles se reuniram na casa de Maria para orar. Oravam de dia. Oravam de tarde. E naquela noite, oravam até tarde, sentados no chão, com as lamparinas acesas. Rode levava água para quem tinha sede, ajeitava as almofadas e, de vez em quando, fechava os olhinhos e orava também: — Deus, cuida do Pedro. Enquanto isso, lá na prisão, aconteceu uma coisa que ninguém esperava. Uma luz encheu a cela. Um anjo de Deus tocou Pedro e disse: — Levanta depressa! As correntes caíram das mãos dele, como fitas soltas. Pedro se vestiu, calçou as sandálias e seguiu o anjo. Passaram pelos guardas, e ninguém os segurou. O grande portão de ferro da cidade se abriu sozinho. Quando chegaram à rua, o anjo desapareceu. Pedro olhou em volta e entendeu: — Foi o Senhor que me tirou de lá! E foi andando direto para a casa de Maria. Toc, toc, toc. Rode ouviu as batidas no portão e foi até lá com cuidado, porque era noite. — Quem é? — perguntou, baixinho. — Sou eu, Pedro. Abre, por favor. Rode conhecia aquela voz. Era a voz que contava histórias de Jesus à mesa, a voz que ria alto e chamava todos de irmãos. O coração dela deu um pulo tão grande de alegria que ela esqueceu completamente de abrir o portão! Saiu correndo pelo pátio, entrou na sala onde todos oravam e gritou: — O Pedro está aí! O Pedro está no portão! Todo mundo parou e olhou para ela. Alguém balançou a cabeça. — Rode, isso não pode ser. Pedro está na prisão, com soldados em volta dele. — Mas é ele! Eu ouvi a voz dele! — Você deve ter sonhado acordada, menina — disse outro, com um sorriso cansado. Rode sentiu as bochechas esquentarem. Era difícil ser a menor da sala e ninguém acreditar nela. Seria mais fácil ficar quieta, abaixar a cabeça e voltar para o canto. Mas ela tinha ouvido. Tinha certeza. Então respirou fundo e disse mais uma vez, firme: — Eu ouvi. É o Pedro. — Então deve ser o anjo dele — disseram alguns, sem entender nada. Toc, toc, toc. As batidas continuavam lá fora. Toc, toc, toc. Rode não desistiu. Pegou a mão de uma das senhoras e puxou: — Vem comigo ver. Por favor, vem! Um a um, os adultos foram se levantando. Atravessaram o pátio atrás da menina. Rode correu na frente. Eles tiraram a tranca do portão e abriram. E lá estava ele. Pedro, de verdade, com as sandálias empoeiradas e um sorriso enorme no rosto. Todos ficaram espantados. Uns cobriram a boca, outros choraram de alegria, outros queriam falar ao mesmo tempo. Pedro levantou a mão, pedindo silêncio, e contou tudo: a luz, o anjo, as correntes caindo, o portão que se abriu sozinho. — Foi Deus quem me livrou — ele disse. — Contem isso para Tiago e para os outros irmãos. Depois, Pedro se despediu e foi para outro lugar, onde estaria seguro. Naquela noite, quando a casa enfim ficou quieta e as lamparinas foram se apagando, Maria passou pelo pátio e encontrou Rode sentada perto do portão. Ela se abaixou, fez um carinho no cabelo da menina e disse: — Ainda bem que você não parou de falar, Rode. Rode sorriu. Olhou para o céu cheio de estrelas, lembrou das orações daquele dia e pensou que Deus tinha ouvido cada uma delas. Até as dela, as baixinhas. E dormiu com o coração quentinho, perto do portão que ela cuidava.