
Era uma vez, dentro do tronco de uma velha goiabeira, uma colmeia de abelhas jataí. As jataís são abelhinhas miúdas, douradas, que não têm ferrão. A casa delas tinha uma entrada muito especial: um tubinho de cera, fininho e amarelado, saindo do tronco como um canudinho. Era a portinha da colmeia. Bia era uma jataí jovem. Até aquele dia, ela tinha trabalhado lá dentro, arrumando os potinhos de mel e cuidando dos ovinhos. Mas naquela manhã, a abelha mais velha da colmeia, dona Fulô, chamou Bia e disse: — Hoje à tarde, você vai ser guardiã da portinha. Bia ficou toda orgulhosa. As guardiãs ficavam paradinhas no ar, bem na frente do tubinho de cera, olhando quem chegava. Se era uma irmã voltando das flores, deixavam passar. Se era alguém de fora querendo pegar o mel, davam o alarme. — Não saia da portinha até o sol se esconder atrás do morro — disse dona Fulô. — Combinado? — Combinado! — respondeu Bia. A tarde começou bonita. Bia pairava no ar, zuuum, olhando as irmãs chegarem com as perninhas cheias de pólen amarelo. — Pode entrar. Pode entrar. Pode entrar — dizia ela, toda séria. Até que passou por ali Lilo, um besourinho verde e brilhante, amigo dela. — Bia! Você não vai acreditar! Lá no laguinho as gotas de orvalho estão escorregando pelas folhas de taioba, e todo mundo está brincando de escorregar junto! Vem! Os olhos de Bia brilharam. Ela adorava escorregar nas folhas de taioba. — Agora não posso, Lilo. Estou guardando a portinha. — Ah, é rapidinho! Ninguém vai notar. Tem um monte de abelha lá dentro. Bia olhou para o laguinho, lá longe. Olhou para a portinha. Olhou de novo para o laguinho. Deu uma voltinha no ar, depois outra, cada vez um pouquinho mais longe do tronco. Já estava quase indo quando lembrou da voz de dona Fulô perguntando: "Combinado?". E ela tinha dito que sim. Bia voltou zunindo para a frente do tubinho de cera. — Hoje não, Lilo. Mas amanhã eu vou. Lilo deu de ombros e foi embora, brilhando no sol. Bia ficou ali. A tarde foi passando devagar. As irmãs entravam, o vento balançava as folhas, e Bia começou a achar que talvez Lilo tivesse razão. Nada acontecia mesmo. Foi aí que ela viu. Uma fila de formiguinhas pretas vinha subindo pelo tronco da goiabeira. Uma atrás da outra, bem organizadas, direto para a portinha. As formigas adoram mel, e aquela fila era comprida, comprida. Bia sentiu as asinhas tremerem. Sozinha, ela não conseguiria segurar tantas formigas. Mas ela sabia o que fazer. Entrou voando pelo tubinho e soltou o cheirinho de alarme que toda jataí entende: atenção, atenção! Em instantes, várias abelhas apareceram. Dona Fulô veio na frente. — Resina! — ela disse. As abelhas trouxeram bolinhas de resina grudenta, aquela cola cheirosa que as jataís recolhem das árvores, e foram colocando em volta do tubinho, bem no caminho das formigas. As primeiras formigas chegaram, encostaram as patinhas na resina e pararam. Grudento demais. Uma por uma, elas deram meia-volta e desceram o tronco, procurando comida em outro lugar. A colmeia estava salva. E os potinhos de mel continuavam cheinhos. Quando o sol se escondeu atrás do morro, outra guardiã chegou para trocar de turno. Bia estava cansada, com as asinhas moles. Dona Fulô pousou ao lado dela. — Se a portinha estivesse sozinha hoje, as formigas teriam entrado — disse a abelha velha, com um zumbido suave. — Você ficou. Bia não sabia o que dizer. Só sentiu o peito quentinho. No dia seguinte, bem cedinho, Bia e Lilo foram juntos ao laguinho. As gotas de orvalho ainda estavam lá, redondas e brilhantes nas folhas de taioba. Bia escorregou uma vez, duas, dez vezes, rindo de zumbir. E quando a tarde chegou, ela voltou voando para a goiabeira, porque era a vez dela de cuidar da portinha.