
Era uma vez um menino chamado Léo que tinha um poder muito especial: quando abria os braços, o vento soprava por baixo dele e ele voava. No bairro, todo mundo o chamava de Ventania. Ele usava uma capa azul-clara, um pouco grande demais, que balançava como bandeira. Ventania ajudava muita gente. Buscava pipas presas nos fios, levava cartas até o último andar do prédio, devolvia bolas que caíam no telhado da escola. Quando terminava, as pessoas gritavam lá de baixo: — Obrigado, Ventania! E ele acenava e ia embora, rápido como uma rajada. O que Ventania não percebia era que ele também recebia ajuda o tempo todo. Dona Cida, da padaria, deixava um pão de queijo quentinho na janela todas as manhãs, para ele comer antes de voar. Seu Raimundo, o porteiro, gritava avisando onde alguém precisava de ajuda. A pequena Tati, da casa amarela, tinha costurado a capa azul com as próprias mãos, com um pouco de ajuda da avó. Ventania pegava o pão, ouvia o aviso, usava a capa... e seguia voando, sem nem olhar para trás. Um dia, numa tarde de vento forte, Ventania foi buscar um gatinho que tinha subido no alto de uma antena. Ele chegou, pegou o gatinho com cuidado e, na descida, a capa enroscou num gancho de metal. Rrrraaaasg! Um rasgão enorme, de cima a baixo. Ventania entregou o gatinho à dona dele e tentou voar de novo. Mas, com a capa rasgada, o vento passava pelo buraco e ele girava, girava, como um pião. Rodopiou por cima da praça e pousou, meio tonto, no meio da calçada. Ele sentou no meio-fio, com a capa rasgada no colo. Como ia ajudar as pessoas agora? Seu Raimundo foi o primeiro a aparecer. — Ô, Ventania! Que cara é essa? — Ele viu a capa e deu um assobio. — Isso tem conserto. Espera aí. Seu Raimundo foi chamar a Tati. Tati veio correndo com a avó, que trazia uma caixinha de linhas e agulhas. Dona Cida saiu da padaria com uma garrafa de suco e um pão de queijo. — Ninguém costura de barriga vazia — disse ela. E ali mesmo, na praça, a avó da Tati começou a costurar, enquanto a Tati segurava a capa bem esticadinha. Seu Raimundo segurava a lanterna, porque o sol já ia baixando. Dona Cida contava piadas para ninguém ficar impaciente. Até o gatinho da antena apareceu, com a dona, e ficou ronronando no colo de Ventania. Ventania olhou para cada um deles. Pela primeira vez, reparou nas mãos enrugadas da avó, puxando a linha com paciência. Nos dedinhos da Tati, que já sabiam dar nó. No pão de queijo, que estava quentinho como todas as manhãs. E percebeu uma coisa que nunca tinha pensado antes: ele não voava sozinho. Quando a capa ficou pronta, com uma costura colorida bem no meio, Ventania se levantou. Mas não saiu voando. Ele foi até a avó da Tati e deu um abraço apertado. — Obrigado. Ficou ainda mais bonita. Depois abraçou a Tati. — Obrigado por ter feito a minha capa. Eu nunca tinha agradecido. Apertou a mão do seu Raimundo. — Obrigado por me mostrar sempre para onde ir. E para dona Cida, ele disse: — Obrigado pelo pão de queijo de todo dia. É o melhor do mundo. Dona Cida riu e ficou vermelha. Então Ventania abriu os braços e o vento soprou. Ele subiu, subiu, bem alto, e começou a voar em círculos por cima da praça, tão rápido que as folhas secas do chão subiram junto com ele, girando e girando, até formar no céu um grande coração dourado de folhas. Lá embaixo, todo mundo bateu palmas. Daquele dia em diante, toda manhã, quando pegava o pão de queijo na janela da padaria, Ventania deixava ali um bilhetinho: "Obrigado, dona Cida". E quando a noite chegava e ele pendurava a capa da costura colorida no cabide, sorria, lembrando de todas as mãos que ajudavam o vento a carregá-lo.