
Era uma vez um reino chamado Vale das Brumas, onde, em certas tardes, uma neblina branca e macia descia das montanhas e cobria tudo, como um cobertor de algodão. Quando isso acontecia, não dava para ver nem a ponta do próprio nariz. A princesa desse reino se chamava Helena. Ela era esperta, curiosa e adorava fazer as coisas do seu jeito. Numa dessas tardes, Helena foi com o menino pastor Tomé até a feira da aldeia, do outro lado do bosque, para comprar sementes de girassol para o jardim do castelo. Tomé levava sua cabrinha, a Mimosa, que tinha um sininho pendurado no pescoço: blim, blim, blim. Na volta, a neblina começou a descer. — Precisamos ir pelo caminho do riacho — disse Tomé. — Eu conheço ele de olhos fechados. É só seguir o barulho da água. Helena franziu a testa. — O caminho do castelo é por ali, reto. Eu sei que é. — Princesa, com a neblina, o "reto" engana. Fique perto do sino da Mimosa. Onde ela for, você vai. Mas Helena não quis. Ela não estava acostumada a seguir ninguém. — Eu vou pelo meu caminho e chego antes de você — disse, e foi andando, decidida. No começo, foi fácil. Mas a neblina foi ficando mais grossa, mais grossa. As árvores viraram sombras. As pedras viraram borrões. Helena deu mais alguns passos e... onde estava o castelo? Para que lado ficava? Ela girou devagar. Tudo era branco. Tudo era igual. Helena parou. Seu coração bateu mais rápido. Ela sentou numa pedra, abraçou os joelhos e ficou quietinha, escutando. Foi então que ouviu, bem longe: blim... blim... blim... O sininho da Mimosa! — Tomé? — chamou Helena. — Princesa! — a voz dele veio de algum lugar à direita. — Fique onde está e continue falando. Eu vou até você. Helena falou. Contou da feira, das sementes, do girassol que queria plantar. E o blim, blim foi chegando mais perto, mais perto, até que um focinho úmido encostou no braço dela. Era a Mimosa. E logo atrás, Tomé. — Achei você — ele disse, sorrindo, sem nenhuma bronca. Helena se levantou. Agora vinha a parte difícil. Ela olhou para a neblina, que continuava enorme. Depois olhou para Tomé, que estendia a mão. Ela era a princesa. Estava acostumada a ir na frente. Mas Tomé conhecia aquele bosque como ela conhecia os corredores do castelo. E tinha ido buscá-la sem reclamar. Helena pegou a mão de Tomé. — Agora eu sigo você — disse ela. E foram juntos. Tomé andava devagar, parando de vez em quando para escutar o riacho. Chuá, chuá, a água cantava à esquerda. Blim, blim, o sininho cantava na frente. Helena não via nada, mas escutava tudo. E, aos poucos, foi percebendo que não precisava ver. Bastava seguir o passo do amigo, o som da água e o sininho. Num certo ponto, Tomé disse: — Aqui tem uma pedra grande. Levanta o pé. Helena levantou, e lá estava a pedra. Mais à frente: — Agora uma raiz. Helena pulou a raiz sem tropeçar. Cada vez que Tomé avisava, e a coisa estava lá, Helena segurava a mão dele com um pouquinho menos de força e andava com um pouquinho mais de vontade. Até que, no meio do branco, apareceu uma luz amarela. Depois outra. Eram as tochas do portão do castelo! O rei e a rainha estavam esperando na entrada, enrolados em mantas. Quando viram Helena, abriram os braços. — Como vocês encontraram o caminho nessa neblina? — perguntou o rei. Helena olhou para Tomé e para a Mimosa. — Eu segui quem conhecia o caminho — respondeu ela. Naquela noite, depois de um banho quente, Helena foi até a janela do quarto. A neblina continuava lá fora, macia e branca. Mas já não parecia tão grande. Na semana seguinte, Helena e Tomé plantaram as sementes de girassol juntos no jardim do castelo. E quando os girassóis cresceram, a princesa pendurou um sininho no mais alto deles. Para lembrar.