
Era uma vez um menino chamado Davi que adorava a hora do recreio. Era a melhor hora do dia: tinha pega-pega, tinha futebol no pátio e tinha o lanche que a mãe dele mandava na lancheira vermelha. Numa segunda-feira, a professora Lúcia entrou na sala com um menino que ninguém conhecia. Ele era alto, magrinho, e segurava a alça da mochila com as duas mãos. — Turma, este é o Jean. Ele veio do Haiti, um país bem longe daqui, e chegou ao Brasil faz pouquinho tempo. Ele ainda está aprendendo a falar português. Jean olhou para o chão. Davi achou estranho alguém ficar tão quieto no primeiro dia. Na hora do recreio, todo mundo saiu correndo para o pátio. Davi também. Mas, enquanto escolhiam os times do futebol, ele viu Jean sentado sozinho no banco, perto da parede, mexendo nos cadarços. — Jean, quer jogar? — gritou Davi. Jean levantou a cabeça, olhou para ele e não respondeu. Depois voltou a mexer nos cadarços. — Ele não quer — disse Pedrinho. — Vamos logo! Davi foi jogar. Mas, entre um chute e outro, olhava para o banco. Jean continuava lá. No dia seguinte, a mesma coisa. E no outro também. Davi começou a pensar que Jean era meio antipático. Até que, na quinta-feira, aconteceu uma coisa. A professora Lúcia deu uma atividade diferente: cada um tinha que desenhar a sua casa. Davi desenhou o prédio dele, com o cachorro na janela. Jean desenhou uma casa pequena e colorida, perto do mar, com uma árvore enorme e muitas pessoas na frente. Depois ficou olhando o desenho por muito tempo. Os olhos dele ficaram molhados. Davi ficou parado, olhando. Lembrou de quando foi passar as férias na casa da tia, numa cidade diferente, onde todo mundo falava de um jeito que ele não entendia direito. Lembrou de como ficou com vontade de voltar para casa. E foram só uns dias. Jean estava longe de tudo o que conhecia. E não conseguia nem contar isso para ninguém. De repente, Davi percebeu: Jean não era antipático. Jean não tinha respondido porque não sabia como. Naquela tarde, em casa, Davi pediu ajuda para a mãe. — Mãe, como se fala "oi" lá no Haiti? A mãe procurou no celular. No Haiti, muita gente fala crioulo haitiano. "Oi" é "bonjou". "Amigo" é "zanmi". "Vamos brincar?" é "Ann jwe?". Davi repetiu as palavras mil vezes. Bonjou. Zanmi. Ann jwe. Bonjou. Zanmi. Ann jwe. Até no banho ele falava. Na sexta-feira, quando tocou o sinal do recreio, Davi não correu para o futebol. Ele andou até o banco onde Jean estava sentado, respirou fundo e disse: — Bonjou, Jean. Jean levantou a cabeça tão rápido que quase derrubou a lancheira. Os olhos dele ficaram enormes. — Bonjou! — ele respondeu, e um sorriso apareceu no rosto dele, o primeiro sorriso que Davi tinha visto. Davi apontou para a bola e disse, meio enrolado: — Ann jwe? Jean riu. Riu de verdade. Disse alguma coisa rápida que Davi não entendeu, mas nem precisava. Jean já estava de pé. No futebol, eles se entendiam com as mãos, com os pés e com gritos de "aqui!". Jean era muito bom de bola. Fez dois gols. Na comemoração, Davi gritou: — Zanmi! — e Jean bateu na mão dele. Na hora do lanche, sentaram juntos. Jean apontou para a banana de Davi e disse: — Fig. Davi caiu na risada. — Banana! Jean repetiu: — Ba-na-na. E apontou de novo: — Fig. Os dois ficaram trocando palavras como quem troca figurinhas. Na semana seguinte, outros colegas quiseram aprender também. Pedrinho aprendeu a dizer bonjou. A professora Lúcia escreveu no quadro: zanmi quer dizer amigo. E Jean, aos poucos, foi aprendendo um monte de palavras em português. No fim daquele mês, quando a mãe de Jean veio buscá-lo, ele puxou a mão dela e apontou para Davi. — Mamãe, ele é meu zanmi — disse Jean, misturando as duas línguas. Naquela noite, antes de dormir, Davi ficou pensando em como era bom ter um amigo que falava duas línguas. E dormiu repetindo baixinho: bonjou, zanmi, boa noite.