
Era uma vez, no meio de um deserto enorme, um povo que morava em tendas. Era o povo de Israel. Fazia tempo que eles caminhavam com Moisés, guiados por Deus, rumo a uma terra nova que Deus tinha prometido. Mas ninguém ainda tinha visto essa terra. Como ela seria? Teria água? Teria comida? Seria um bom lugar para as crianças crescerem? Então Moisés chamou doze homens, um de cada família do povo. Entre eles estava Calebe, um homem de olhar atento e passos firmes. — Vão até a terra de Canaã — disse Moisés. — Olhem tudo com cuidado. Vejam se a terra é boa, como são as cidades e o que nasce por lá. E tragam um pouco dos frutos para mostrar. Os doze partiram. Andaram muitos dias. E, aos poucos, o chão de areia foi ficando verde. Havia riachos cantando entre as pedras, figueiras carregadas, romãs vermelhinhas penduradas nos galhos. Calebe respirava fundo aquele cheiro de terra molhada e sorria. Num vale, eles encontraram uma videira diferente de todas. O cacho de uvas era tão grande, tão pesado, que um homem sozinho não conseguia carregar. Eles amarraram o cacho numa vara comprida e levaram nos ombros, dois homens, um na frente e outro atrás, balançando devagarinho. — Ninguém vai acreditar quando vir isso! — riu Calebe. Mas a terra também tinha outras coisas. Havia cidades com muros altos de pedra. E havia gente muito, muito alta, mais alta do que qualquer pessoa que eles conheciam. Alguns espias começaram a cochichar. — Você viu o tamanho deles? — Perto deles, a gente parece formiguinha. — Formiguinha não... a gente parece gafanhoto! Depois de quarenta dias, os doze voltaram ao acampamento. O povo inteiro correu para ver. As crianças apontavam para o cacho gigante, de olhos arregalados. Moisés pediu: — Contem o que vocês viram. Dez espias falaram primeiro. E foram aumentando, aumentando as coisas ruins. — A terra é boa, sim, mas os muros chegam até o céu! — Os homens de lá são gigantes! — Nós éramos como gafanhotos perto deles! — Não dá. É impossível. O povo ficou assustado. Um murmúrio de medo foi crescendo, como vento antes da chuva. Algumas pessoas começaram a chorar. Outras diziam que era melhor nem tentar. Calebe ficou quieto um instante. Seu coração batia forte. Seria tão mais fácil concordar com os outros dez. Eles eram muitos. Ele era só um, junto com seu amigo Josué. Se falasse diferente, todo mundo ia olhar para ele. Mas Calebe lembrou do que tinha visto de verdade. Os riachos. As romãs. O cacho que precisou de dois homens para carregar. E lembrou também que Deus tinha cuidado deles no deserto até ali, dia após dia. Ele subiu numa pedra, levantou a mão e pediu silêncio. — Esperem! Escutem! — disse, com voz firme. — Eu estava lá. Eu vi. A terra é boa, muito boa. As cidades têm muros, é verdade. As pessoas são altas, é verdade também. Mas ninguém virou gafanhoto. Isso foi o medo que aumentou. O que eu vi foi uma terra cheia de frutos, que Deus prometeu para nós. E, se Deus está conosco, nós podemos ir. Josué ficou ao lado dele e disse a mesma coisa. Os dois contaram o que viram, sem aumentar o perigo e sem esconder nada. Naquele dia, o povo não quis ouvir. O medo falou mais alto, e eles tiveram que esperar muitos anos no deserto antes de entrar na terra. Mas Deus olhou para Calebe com carinho e disse que ele tinha um espírito diferente, porque falou a verdade e confiou de todo o coração. E Deus prometeu que Calebe pisaria naquela terra boa. E Deus cumpriu. Muitos anos depois, quando Calebe já tinha cabelos brancos, ele finalmente entrou em Canaã. Foi até Josué e disse, sorrindo: — Lembra daquela montanha que eu vi quando era moço? Eu ainda tenho força. Quero morar lá. E Calebe recebeu a cidade de Hebrom, pertinho do vale onde, um dia, tinham carregado o cacho de uvas gigante. Dizem que, nas tardes quentes, ele sentava debaixo de uma videira com os netos e contava a história toda, devagarinho, do jeitinho que tinha acontecido. Quando o sol ia se pondo e as estrelas apareciam sobre a montanha, os pequenos já sabiam o final de cor. E Calebe sorria, com a voz baixinha: — Foi assim mesmo. Eu vi.