
Era uma vez, numa mata cheia de árvores altas, um tucano jovem chamado Tuco. Tuco tinha o bico mais bonito da floresta: laranja como o pôr do sol, com uma pontinha preta, grande e brilhante. E Tuco sabia disso. Todas as manhãs, ele pousava no galho mais alto e anunciava: — Bom dia, mata! O melhor bico da floresta acordou! Os outros bichos achavam graça, mas às vezes ficavam meio cansados. Quando a arara contava uma história, Tuco dizia que sabia uma melhor. Quando o macaco achava uma fruta, Tuco dizia que tinha achado uma maior. E quando o pequeno tico-tico, um passarinho marrom do tamanho de uma ameixa, tentava falar alguma coisa, Tuco nem esperava ele terminar. — Ah, Tiquinho, você é tão pequeno. O que é que você pode saber? Tiquinho piscava, encolhia as asas e voava para o chão, onde gostava de ciscar sementinhas entre as folhas. Ele conhecia cada trilha, cada pedra, cada toco da mata, porque passava o dia inteiro lá embaixo, olhando tudo de pertinho. Um dia, Tuco ouviu falar de uma figueira carregada do outro lado do rio. — Vou lá agora! — disse. — Com este bico, eu pego mais figos do que todo mundo junto! A velha coruja abriu um olho. — Vai chover hoje à tarde, Tuco. A neblina desce rápido perto do rio. Tuco riu. — Neblina não assusta quem voa tão bem quanto eu. E foi. A figueira era mesmo maravilhosa. Tuco comeu figo doce até não aguentar mais. Mas, quando levantou a cabeça, o céu estava cinza. Uma neblina branca e fofa tinha descido sobre a mata, apagando as árvores como uma borracha apaga um desenho. Pingos grossos começaram a cair. Tuco voou para um lado. Só via branco. Voou para o outro. Mais branco. Pousou num galho que não conhecia. Seu coração começou a bater depressa. Onde estava o rio? Onde estava o seu ninho? Ele, que se achava o melhor em tudo, não sabia voltar para casa. Então ouviu um barulhinho conhecido lá embaixo. Tic, tic, tic. Era Tiquinho, ciscando debaixo de uma folha grande de bananeira, protegido da chuva. Tuco sentiu as bochechas esquentarem por dentro das penas. Pedir ajuda para o Tiquinho? Logo para o Tiquinho, de quem ele tinha rido tantas vezes? A chuva apertou. Tuco desceu, galho por galho, até ficar pertinho do chão. Respirou fundo. — Tiquinho... — disse baixinho. — Eu me perdi. Não sei o caminho de volta. Você me ensina? E, antes que o passarinho respondesse, Tuco completou: — E me desculpa. Por todas as vezes que eu não deixei você falar. Tiquinho olhou para ele um tempinho. Depois estufou o peito pequeno e sorriu. — Vem. Mas voa baixinho, atrás de mim. Lá em cima não dá para ver nada. Aqui embaixo eu conheço tudo. E lá foram os dois. Tiquinho na frente, pulando de raiz em raiz, de pedra em pedra. Tuco atrás, voando baixo como nunca tinha voado, com o bico grande quase raspando nas samambaias. — Aqui tem o toco que parece um sapo — dizia Tiquinho. — Agora a pedra redonda. Agora a ponte de cipó. Tuco prestava atenção em cada palavra. E, pela primeira vez, percebeu quanta coisa existia lá embaixo que ele nunca tinha reparado. Quando a noite começou a cair, eles chegaram ao pé da árvore de Tuco. A chuva tinha parado. Uma estrela tímida apareceu entre as nuvens. — Obrigado, Tiquinho — disse Tuco. — Você sabe coisas que eu não sei. Na manhã seguinte, Tuco pousou no galho mais alto, como sempre. Os bichos já esperavam o anúncio de todo dia. Mas Tuco disse outra coisa. — Bom dia, mata! Ontem eu me perdi na neblina, e quem me trouxe de volta foi o Tiquinho. Ele conhece cada trilha daqui. Depois, os dois voaram juntos até a figueira, e Tuco colheu com seu bico comprido os figos mais altos, aqueles que Tiquinho nunca alcançava, e deixou uma pilha bem ao lado do amigo. Desde então, quando alguém tem uma dúvida sobre os caminhos da mata, Tuco é o primeiro a dizer: — Pergunta para o Tiquinho. E, quando Tiquinho fala, Tuco espera ele terminar.