
Era uma vez um homem chamado Jacó, que estava voltando para casa depois de muitos e muitos anos longe. Ele vinha devagar pela estrada de terra, com a família, os filhos pequenos, os pastores e um rebanhão de ovelhas, cabras, camelos e jumentos que levantavam poeira até o céu. Mas o coração de Jacó estava apertado. Na terra para onde ele voltava morava Esaú, seu irmão gêmeo. Quando eram jovens, os dois tinham brigado feio, e quem tinha errado era Jacó: ele tinha enganado o irmão. Depois da briga, Jacó foi embora para bem longe, e os dois nunca mais se viram. — Será que Esaú ainda está bravo comigo? — pensava Jacó, olhando para o horizonte. Ele mandou mensageiros na frente para avisar que estava chegando. Os mensageiros voltaram apressados, com os olhos arregalados: — Jacó, seu irmão está vindo encontrar você! E vem com quatrocentos homens! Quatrocentos! Jacó sentiu as pernas tremerem. Naquela noite, ele quase não dormiu. Primeiro, fez o que o medo mandava: dividiu o acampamento em dois grupos. Depois, fez o que o coração mandava: ajoelhou-se e orou. — Deus, tu prometeste cuidar de mim. Eu não mereço toda a bondade que já recebi de ti. Agora estou com medo do meu irmão. Por favor, me ajuda. Quando terminou de orar, Jacó ficou um tempo quieto, olhando as estrelas. E então decidiu uma coisa. Ele não ia esperar o irmão escondido, nem de cabeça empinada. Ia recebê-lo com respeito. Bem cedinho, Jacó separou presentes: duzentas cabras, duzentas ovelhas, camelos com seus filhotes, vacas e jumentinhos. Mandou os pastores irem na frente, cada grupo de animais separado do outro. — Quando encontrarem meu irmão Esaú — disse Jacó —, digam assim: "Isto é um presente para o senhor Esaú, enviado por Jacó. E ele mesmo vem logo atrás." Os pastores foram, um grupo atrás do outro, numa fila comprida de bichos balindo e mugindo pela estrada. Então, ao longe, Jacó viu a poeira subir. Era Esaú, com os quatrocentos homens. O pequeno José, filho de Jacó, segurou firme a mão da mãe, Raquel. As crianças olhavam para o pai, esperando para ver o que ele ia fazer. Jacó não se escondeu atrás de ninguém. Passou para a frente de toda a família e caminhou na direção do irmão. E, pelo caminho, fez uma coisa que ninguém esperava: curvou-se até o chão. Andava um pouco e se curvava. Andava mais um pouco e se curvava de novo. Sete vezes Jacó se inclinou até o chão diante de Esaú, como quem diz sem nenhuma palavra: "Você é importante. Eu sinto muito." E Esaú? Esaú correu! Correu ao encontro de Jacó, abraçou o irmão, segurou-o pelo pescoço e o beijou. E os dois choraram juntos, ali no meio da estrada, enquanto a poeira baixava devagarinho. Depois de um tempo, Esaú olhou em volta e viu as mulheres e as crianças. — Quem são estes que estão com você? — São os filhos que Deus me deu — respondeu Jacó, com um sorriso. Um por um, eles vieram cumprimentar o tio. Por último chegou o pequeno José com sua mãe, e ele também se inclinou diante de Esaú, do jeitinho que tinha visto o pai fazer. — E todos aqueles animais que encontrei pelo caminho? — perguntou Esaú. — São um presente para você, meu irmão. — Eu já tenho muito — disse Esaú. — Guarde o que é seu. Mas Jacó insistiu: — Por favor, aceite. Ver você me receber com tanta bondade é como ver o rosto de Deus sorrindo para mim. E Esaú aceitou. Naquela noite, o acampamento estava em paz. Os animais descansavam, as fogueiras estalavam baixinho e as crianças dormiam encostadas umas nas outras. Jacó olhou de novo para as estrelas. O medo tinha ido embora. No lugar dele, havia um abraço que ainda morava quentinho no seu peito.