
Era uma vez, no pé de uma goiabeira, um formigueiro cheio de formigas trabalhadeiras. Entre elas morava Zuzu, uma formiguinha pequena, de antenas sempre mexendo, que adorava olhar as coisas de um jeito diferente. Todos os dias as formigas faziam o mesmo caminho: saíam do formigueiro, passavam pela pedra lisa, contornavam o tufo de capim e chegavam ao pé da goiabeira, onde caíam goiabas maduras e docinhas, perfeitas para levar pedacinhos para casa. Mas numa tarde choveu forte. Choveu, choveu, choveu. E quando a chuva parou, havia uma poça enorme bem no meio do caminho. Para uma pessoa, era só uma pocinha. Para uma formiga, era um lago inteiro, brilhando, com ondinhas que o vento fazia. — E agora? — perguntou Dona Lurdes, a formiga mais velha. — A goiaba está do outro lado, e o formigueiro está quase sem comida. As formigas tentaram dar a volta. Andaram pela beirada da poça, andaram, andaram... mas a poça era comprida demais, e o capim do outro lado estava todo encharcado e escorregadio. Voltaram cansadas, com as patinhas cheias de lama. — Vamos esperar a água secar — disse uma. — Pode demorar dias! — respondeu outra. Zuzu ficou sentada numa pedrinha, olhando a poça. As antenas dela giravam devagar, como quem pensa. Ela viu um graveto boiando. Viu uma pétala rodando na água. Viu uma folha seca, grande e curvinha, parada na beirada. — E se a gente fosse por cima? — disse Zuzu. As outras formigas riram, mas sem maldade. — Por cima da água, Zuzu? Formiga não nada! Zuzu não respondeu. Foi até um graveto e tentou empurrá-lo para dentro da poça, para fazer uma ponte. O graveto era curto demais: chegava só até o meio e ficava rodando. Ela tentou dois gravetos juntos, mas eles se separavam. Zuzu sentou de novo, um pouco desanimada. Foi então que uma brisa soprou, e a folha seca da beirada deslizou um pouquinho na água. Ela não afundou. Ficou boiando, com as bordas viradas para cima, como um barquinho. As antenas de Zuzu pararam de uma vez. — Já sei! Ela correu até a folha e puxou-a de volta para a beirada. Depois pediu ajuda: — Dona Lurdes, me ajuda a arrastar aquela folha comprida ali? E aquela outra também? Mesmo sem entender bem, as formigas ajudaram. Zuzu arrumou as folhas secas uma atrás da outra, cada pontinha encostada na próxima, desde a beirada da poça até uma pedra que aparecia no meio da água. Depois, mais folhas, da pedra até o outro lado. Para segurar tudo no lugar, ela prendeu as pontas com gravetinhos enfiados na lama. Quando terminou, havia um caminho dourado de folhas atravessando o lago. Uma ponte de folha seca! As formigas ficaram olhando, em silêncio. — Será que aguenta? — perguntou alguém. Zuzu respirou fundo e foi a primeira a passar. A folha balançou um pouquinho, mas segurou. Ela passou para a pedra, depois para a outra folha, e pisou na terra firme do outro lado. Levantou as duas patinhas da frente e acenou. Uma a uma, as formigas atravessaram. Na volta, cada uma carregava um pedacinho de goiaba nas costas, vermelho e cheiroso, passando pela ponte em fila, como num desfile. No fim da tarde, o formigueiro estava cheio de comida. E as outras formigas começaram a ter ideias também: — E se a gente usar casca de semente como cestinha? — E se fizer um telhadinho de folha na porta, para a chuva não entrar? Zuzu ria, com as antenas balançando. — Vamos experimentar! Quando a noite chegou, o sapo da beira da poça coaxou baixinho, os vaga-lumes acenderam suas luzinhas, e o formigueiro foi dormindo, quentinho. Zuzu fechou os olhos já sonhando com a próxima invenção. Lá fora, a ponte de folha seca continuava boiando quietinha, esperando a manhã.