
Era uma vez uma menina chamada Clara que tinha um poder especial: quando ela fechava as mãos e pensava em algo bom, o corpo dela começava a brilhar com uma luz dourada e quentinha, igual à de uma lanterna. No bairro, todo mundo a chamava de Centelha, a menina que acende. Mas Centelha tinha um segredo que quase ninguém sabia: ela tinha medo do escuro. Dentro de casa, com o abajur aceso e a mãe por perto, tudo bem. Mas o escuro lá fora, aquele escuro grandão, cheio de sombras e barulhinhos, fazia o coração dela bater ligeiro. Numa noite de sábado, a praça do bairro estava em festa. Tinha barraca de pipoca, roda de música e criançada correndo. Centelha estava lá com a mãe e o pai, comendo milho cozido, quando, de repente... PLOFT! Todas as luzes se apagaram. As lâmpadas da praça, as janelas das casas, tudo. Tinha acabado a energia do bairro inteiro. Um "ohhh" comprido passou pela praça. Os adultos procuraram os celulares, mas quase todos estavam sem bateria de tanto tirar foto. Lá no fundo, perto do coreto, uma voz pequena começou a chorar. — Pai! Pai, cadê você? Era o Toninho, um menino de quatro anos, que tinha se afastado um pouquinho do pai para ver a banda e agora não enxergava nada. Centelha sentiu o escuro em volta dela, grandão, apertando. As pernas ficaram moles. Ela segurou a mão da mãe com força. — Mãe, eu estou com medo. A mãe abaixou e falou bem pertinho: — Eu sei, filha. Eu estou aqui. A mãe não disse "vai lá". Não disse "não precisa ter medo". Só ficou ali, segurando a mão dela. Centelha ouviu de novo o choro do Toninho. Era um choro de quem estava com mais medo ainda do que ela. Então ela fechou as mãos e pensou numa coisa boa: o cheiro da pipoca, o abraço do pai, a risada do Toninho quando os dois brincavam no escorregador. Primeiro, só a ponta dos dedos acendeu. Depois as mãos. Depois os braços, o rosto, o cabelo... até que Centelha virou uma luzinha dourada no meio da praça escura. — Vem comigo, mãe? — ela pediu. — Vou — disse a mãe. E as duas foram andando, devagarinho, na direção do coreto. A cada passo, as sombras pulavam para longe. A cada passo, o coração de Centelha batia rápido, mas ela não parou. Quando o medo apertava, a luz dela tremia um pouco. Ela respirava fundo, pensava de novo na pipoca e no escorregador, e a luz voltava a firmar. Debaixo da escadinha do coreto estava o Toninho, abraçado nos joelhos. — Toninho! Sou eu, a Clara! O menino levantou a cabeça. Viu aquela luz quentinha e parou de chorar na hora. — Você está brilhando! — Estou. Segura minha mão? Ele segurou. E logo apareceu o pai do Toninho, que tinha visto a luz de longe e veio depressa. Abraçou o filho bem apertado, com cara de quem voltava a respirar. Mas a noite ainda estava escura, e muita gente na praça não sabia por onde ir. Então Centelha subiu nos degraus do coreto, com a mãe do lado, e brilhou o mais forte que conseguiu. A praça inteira ficou dourada, como se o sol tivesse vindo fazer uma visitinha. As pessoas se encontraram, as famílias se juntaram, e a banda, que tinha parado, começou a tocar de novo, baixinho, uma música lenta. Ficaram todos ali, debaixo da luz da Centelha, até que as lâmpadas da rua piscaram e acenderam de novo. Todo mundo bateu palmas. Mas não era para as lâmpadas. Naquela noite, em casa, Clara deitou na cama e pediu para a mãe deixar o abajur aceso, como sempre. A mãe deixou. Antes de dormir, Clara olhou para as próprias mãos. — Mãe, eu ainda tenho medo do escuro. — Eu sei — disse a mãe, dando um beijo na testa dela. — E mesmo assim você foi. Clara sorriu, puxou o cobertor até o queixo e fechou os olhos.