
Era uma vez uma menina chamada Helena que tinha uma jabuticabeira no quintal. Era uma árvore velha, de tronco liso e manchadinho, que o vovô tinha plantado muito antes de Helena nascer. Quase o ano todo, a jabuticabeira ficava só com folhinhas verdes. Mas uma vez por ano acontecia uma coisa mágica: o tronco inteiro, de cima a baixo, se cobria de bolinhas pretas e brilhantes. Era tempo de jabuticaba! Naquele ano, Helena tinha um plano. Ela ia encher o maior pote da cozinha, o pote de vidro azul, até a boca, e mostrar para o vovô. Seria o pote de jabuticabas mais cheio de toda a história. Na primeira manhã, Helena pegou o pote e começou a colher as jabuticabas da parte de baixo do tronco, que ela alcançava com as mãos. As do alto, o vovô colhia depois. Ploc, ploc, ploc. As frutinhas caíam no pote fazendo um barulhinho gostoso. De vez em quando, uma ia direto para a boca e estourava doce e azedinha ao mesmo tempo. Foi aí que Helena percebeu que estava sendo observada. Do outro lado da grade, na calçada, estavam três crianças da rua de trás: o Ícaro, a Duda e o irmãozinho dela, o Benjamin. Voltavam da escola com as mochilas nas costas e olhavam para a árvore com os olhos brilhando. — Nossa... quanta jabuticaba — disse a Duda, baixinho. Helena abraçou o pote. Pensou no plano. Se desse jabuticaba para eles, o pote não ia ficar cheio. Então virou de costas e continuou colhendo, fazendo de conta que não tinha ouvido. As crianças ficaram mais um pouquinho e depois foram embora devagar. Helena olhou para o pote. Estava pela metade. Ela devia estar contente, mas o peito estava estranho, meio pesado, como quando a gente come depressa demais. No dia seguinte, a mesma coisa. As crianças passaram, pararam na grade, olharam. O Benjamin, que era bem pequenininho, apontou para uma jabuticaba caída no chão, do lado de dentro. Não pediu nada. Só apontou, e ficou olhando. Helena olhou para o Benjamin. Depois para o pote quase cheio. Depois para a árvore. Ainda tinha jabuticaba por todo lado: no tronco, nos galhos, no chão. Tinha tanta que nem dava para contar. Ela lembrou do vovô dizendo, todo ano, que aquela árvore dava fruta demais para uma família só. Helena nunca tinha entendido direito o que ele queria dizer. Então ela colocou o pote no chão, foi até a grade e falou: — Ei! Vocês querem entrar para colher também? As três crianças ficaram paradas, sem acreditar. Helena correu para dentro de casa e voltou puxando o vovô pela mão. Ele abriu o portão com um sorriso enorme, daqueles que fazem os olhos ficarem pequenininhos. O quintal virou festa. O Ícaro achou a jabuticaba mais gorda de todas. A Duda descobriu um jeito de apertar a frutinha que fazia ploc bem alto. O Benjamin não alcançava quase nada, então Helena mostrou para ele os cachinhos bem baixinhos, rentes à raiz, que só criança pequena consegue ver. Todo mundo ficou de boca roxa, rindo da boca roxa dos outros. Na hora de ir embora, Helena olhou para o pote azul. Pegou um punhado e encheu a lancheira da Duda. Pegou outro e encheu as mãos em concha do Benjamin. O pote, que estava quase cheio, voltou a ficar pela metade. E Helena achou graça, porque o peito dela agora estava levinho. No outro dia, a campainha tocou. Eram as três crianças. A mãe da Duda tinha mandado um bolo de fubá ainda morno. O Ícaro trouxe um desenho: a jabuticabeira bem grande, cheia de bolinhas pretas, e embaixo dela cinco pessoas de boca roxa, de mãos dadas. O Benjamin trouxe só um abraço, e foi o abraço mais apertado de todos. Naquela noite, o vovô fez geleia com as jabuticabas do pote azul, e todo mundo comeu com o bolo de fubá na varanda, enquanto o céu ia ficando escuro. Antes de dormir, Helena colou o desenho do Ícaro na parede, bem do lado da cama, e ficou olhando até os olhos fecharem.