
Era uma vez uma vila pequenina, com casinhas de telhado vermelho, aos pés de uma montanha alta e azulada. Na vila morava Tomé, um menino de bochechas redondas que vivia com a avó Zefa, dona da melhor sopa de abóbora da região. Todo mundo sabia que, no alto da montanha, morava um gigante. Ninguém nunca o tinha visto de perto, mas de vez em quando se ouvia, lá longe, o barulho dos passos dele: tum... tum... tum... E ninguém se importava. Mas, naquela semana, alguma coisa mudou. Da montanha começou a vir um barulho novo, enorme: ATCHIIIIIM! Era tão forte que as janelas tremiam, as galinhas saíam correndo e as folhas das árvores voavam todas para o mesmo lado. — O gigante está bravo! — disse o padeiro. — Ele vai derrubar nossas casas! — disse a costureira. — Vamos fechar as portas e esperar ele se acalmar — disse o prefeito, com o bigode tremendo. Tomé ficou na janela, ouvindo. ATCHIIIIIM! E depois, bem fraquinho, veio um som que mais ninguém pareceu notar: snif... snif... — Vó — disse Tomé —, isso não parece barulho de bravo. Parece barulho de quando eu fiquei resfriado. A avó Zefa parou de mexer a sopa e escutou também. ATCHIIIIIM! Snif... snif... — Pois não é que você tem razão? Tomé foi até a praça e tentou contar para os outros, mas ninguém quis ouvir. Estavam todos ocupados pregando tábuas nas janelas. Tomé voltou para casa pensando. Lembrou de como era ruim ficar resfriado: o nariz entupido, a garganta arranhando, o corpo pedindo cobertor. Lembrou que, quando ficava doente, a avó sentava na beira da cama e fazia sopa. Mas quem fazia sopa para o gigante? — Vó, a gente pode levar sopa para ele? A avó olhou para o caldeirão, depois para Tomé, e abriu um sorriso. — Vamos precisar de uma panela bem maior. No dia seguinte, os dois subiram a trilha da montanha, devagar, puxando uma carrocinha com a maior panela que a avó conseguiu emprestar, cheia de sopa de abóbora quentinha. Quanto mais subiam, mais forte ficava o vento dos espirros. Tomé segurava o chapéu com as duas mãos. Lá no alto, sentado numa pedra, estava o gigante. Ele era grande como uma casa de dois andares, tinha o nariz vermelho como um tomate e estava enrolado numa toalha de mesa velha que mal cobria os ombros. Os olhos dele estavam molhados. Tomé sentiu um friozinho na barriga. Mas o gigante não parecia nada bravo. Parecia só cansado... e muito sozinho. — Oi — disse Tomé. — A gente ouviu você espirrar. Trouxemos sopa. O gigante piscou, surpreso. Fazia tanto tempo que ninguém subia até ali que ele nem sabia o que responder. Pegou a panela com dois dedos, com todo cuidado, e tomou a sopa num gole só. Depois deu um suspiro longo e quentinho. — Faz muito tempo que ninguém sobe para me ver — disse ele, com uma voz grossa e mansa. — Lá embaixo, todos se escondem quando eu espirro. Tomé olhou para a toalhinha nos ombros do gigante e sentiu o vento gelado do alto da montanha. — Espera aqui — disse ele. Tomé e a avó desceram a trilha. Na vila, Tomé foi de porta em porta. — O gigante não está bravo. Está resfriado e com frio. Alguém tem um retalho de pano para dar? Primeiro, só a costureira abriu a porta. Depois, o padeiro. Depois, os vizinhos, curiosos. Cada um trouxe um retalho: um xadrez, um florido, um de lã azul, um de bolinhas. A costureira e a avó Zefa passaram a noite costurando, e a vila inteira ajudou a segurar as pontas. De manhã, havia um cobertor gigante, colorido como uma colcha de festa. A vila toda subiu a montanha para entregar. O gigante se enrolou no cobertor, fechou os olhos e sorriu. Daquele dia em diante, ninguém mais pregou tábua nas janelas. Quando se ouvia um ATCHIM lá do alto, alguém sempre gritava "Saúde!", e a avó Zefa já ia esquentando a sopa. E, nas noites frias, quem olha bem para a montanha azul vê, lá em cima, um pontinho colorido, quietinho, dormindo enrolado no cobertor da vila.