
Era uma vez um menino chamado Rafa, que todo domingo de manhã ia à feira com o vovô Zé. Rafa adorava a feira. Adorava o cheiro de pastel, o barulho das pessoas chamando — Olha a banana! Olha o abacaxi docinho! — e as cores de todas as frutas empilhadas como montanhas. Naquele domingo, o vovô fez uma coisa nova. Entregou para Rafa uma nota dobrada e disse: — Hoje é você quem vai comprar as laranjas. Uma dúzia, na barraca da dona Cida. Rafa estufou o peito. Era a primeira vez que comprava sozinho, com o vovô olhando lá do banquinho da barraca de caldo de cana. A barraca da dona Cida era a mais cheia da feira. Ela era uma senhora baixinha, de avental verde, que falava rápido e mexia as mãos mais rápido ainda. Separava as laranjas, ensacava os limões, dava o troco, tudo ao mesmo tempo. — Uma dúzia de laranja, por favor — disse Rafa, esticando a nota. — É pra já, meu bem! Dona Cida encheu o saquinho, pegou a nota e, sem nem olhar, despejou um punhado de moedas na mão do Rafa. Depois já se virou para atender outra pessoa. Rafa olhou as moedas. Contou devagar, como tinha aprendido na escola. E contou de novo. Tinha moeda demais. Muito mais do que devia. Dona Cida tinha se enganado. O coração de Rafa deu um pulinho. Logo ali na frente ficava a barraca de figurinhas, com aquele pacote do álbum de bichos do mar que ele queria tanto. Com aquelas moedas a mais dava para comprar dois pacotes. Talvez três! — Ninguém viu — pensou Rafa. — Nem a dona Cida percebeu. Ele deu um passo na direção da barraca de figurinhas. Depois mais um. As moedas tilintavam no bolso. Mas cada tilintar parecia deixar o bolso mais pesado. Rafa olhou para trás. Dona Cida continuava correndo de um lado para o outro, com o rosto suado, atendendo todo mundo. Rafa lembrou que ela acordava antes do sol para trazer as frutas do sítio. Lembrou que uma vez ela tinha dado uma mexerica de presente para ele, só porque ele estava com cara de sono. Ele parou. Ficou um tempinho ali, entre a barraca de figurinhas e a barraca de frutas. Puxou o ar bem fundo. E voltou. Rafa esperou a fila andar. Quando chegou a vez dele de novo, esticou a mão aberta, com as moedas brilhando. — Dona Cida, a senhora me deu troco demais. Dona Cida parou. Olhou as moedas. Olhou para Rafa. Contou rapidinho e arregalou os olhos. — Minha nossa! Eu estava achando que tinha perdido dinheiro hoje, menino. Já estava preocupada! Ela pegou as moedas a mais e conferiu o troco certo na mão dele. Depois limpou as mãos no avental e ficou um tempinho olhando para Rafa, com um sorriso diferente. — Sabe o que mais? Domingo que vem, quem escolhe as laranjas é você. Pode pegar as mais bonitas da pilha. Eu confio. Rafa voltou para o banquinho com o saco de laranjas, as bochechas vermelhas e o peito quentinho. O vovô Zé tinha visto tudo lá de longe. Não disse nada. Só bagunçou o cabelo do neto e passou o braço em volta dele. — E as figurinhas? — perguntou Rafa, meio sem jeito. — Ah, as figurinhas... — disse o vovô. — Que tal a gente guardar o troquinho da semana num pote, e no sábado você compra o seu pacote? Rafa achou uma ótima ideia. Na volta para casa, o sol já estava alto, e as laranjas balançavam no saco a cada passo. Rafa ia na frente, assobiando. As moedas tinham ficado para trás, mas ele se sentia mais leve do que nunca. E no domingo seguinte, lá estava ele, escolhendo as laranjas mais redondas e cheirosas da pilha, enquanto dona Cida piscava para ele por cima do avental verde.