
Era uma vez, num reino de colinas verdes e rios cheios de peixinhos, uma princesa chamada Clara. Clara gostava de muitas coisas: de subir na torre para ver as nuvens, de ajudar a cozinheira a fazer pão de mel e de conversar com os patos do lago. Mas tinha uma coisa de que Clara não gostava nem um pouquinho: cavalos. Principalmente do Trovão. Trovão era o cavalo mais antigo do castelo. Era enorme, escuro como a noite, com uma crina comprida e cascos do tamanho de panelas. Quando ele bufava, saía um vento quente das narinas. Quando batia o casco no chão, as pedras do estábulo pareciam tremer. Clara sempre passava longe do estábulo, segurando a saia e andando bem depressa. Um dia de inverno, o velho cavalariço Martim, que cuidava dos cavalos, chegou ao salão com a testa franzida. — Trovão não está bem, Majestade — disse ele ao rei. — Está velhinho e tristonho. Não quer comer nada no cocho. Só aceita comida da mão de alguém, e da minha mão ele já não quer mais. O rei tentou. A rainha tentou. O cozinheiro tentou. Trovão virava a cabeça para o outro lado. Clara ouviu tudo de trás da cortina. Ela sabia uma coisa que ninguém sabia: às vezes, quando passava correndo perto do estábulo, Trovão esticava o pescoço e cheirava o ar na direção dela. Ela sempre achou que era para assustá-la. Mas e se não fosse? Naquela tarde, Clara pegou uma maçã vermelha na cozinha e foi até a porta do estábulo. Martim estava lá dentro, escovando um potro. As pernas de Clara tremiam. O coração batia tão forte que ela ouvia nos ouvidos. Lá no fundo, na última baia, estava Trovão, de cabeça baixa. — Martim — ela disse, com a voz fininha. — Fica comigo? — Fico, princesa. Estou bem aqui do seu lado. Clara deu um passo para dentro. O cheiro de feno subiu no nariz. Deu outro passo. Trovão levantou as orelhas. Clara parou. Quis dar meia-volta e sair correndo. Mas olhou para os olhos do cavalo e viu que eles não eram bravos. Eram olhos cansados, grandes, molhados, como os olhos de quem está com saudade de alguma coisa. Ela deu mais um passo. E outro. Quando chegou na frente da baia, Clara estava tremendo da cabeça aos pés. Martim mostrou como fazer: mão bem aberta, retinha, com a maçã no meio da palma. Clara esticou o braço devagar, devagarinho. Trovão abaixou a cabeça enorme. O focinho dele chegou bem perto. Era macio como veludo e fazia cócegas. Clara fechou os olhos. Crec! Trovão comeu a maçã. Inteirinha. Depois deu um bufo morno na mão dela, como quem diz obrigado. Clara abriu os olhos e começou a rir. Um riso que vinha lá de dentro e não parava mais. — Ele comeu, Martim! Ele comeu da minha mão! Martim sorriu, com os olhos brilhando. — Comeu, sim. Acho que ele estava esperando por você há muito tempo. Daquele dia em diante, todas as tardes, Clara ia até o estábulo levar uma maçã, uma cenoura ou um punhado de aveia para o Trovão. No começo, ainda sentia as pernas tremerem um pouquinho. Mas ia mesmo assim. Aos poucos, aprendeu com Martim a escovar a crina dele, a falar baixinho no ouvido dele e a perceber quando ele estava com frio. E Trovão foi ficando mais forte. Seus olhos voltaram a brilhar. Na primavera, já trotava pelo pasto, levantando a cabeça para o sol. Numa tarde dourada, Clara estava sentada na cerca do pasto quando Trovão veio caminhando devagar até ela e encostou a cabeça enorme no seu ombro. Ela fez carinho no pescoço dele e ficou ali, quietinha, vendo o sol se pôr atrás das colinas. O cavalo continuava gigante. Os cascos continuavam do tamanho de panelas. Mas agora, quando Clara ouvia o barulho deles batendo no chão, era como ouvir um amigo chegando.