Era uma vez, há mais de trezentos anos, numa pequena cidade da Alemanha chamada Arnstadt, um jovem músico chamado Johann Sebastian Bach. Ele tocava órgão na igreja da cidade, aquele instrumento enorme, cheio de tubos de metal, que soa como se fossem muitos instrumentos juntos. Bach tocava muito bem. Seus dedos corriam pelas teclas e seus pés dançavam nos pedais. Quando ele tocava, as pessoas da cidade paravam na porta da igreja para ouvir. — Ninguém aqui toca como o jovem Bach! — diziam. E era verdade: em Arnstadt, ninguém tocava como ele. Mas um dia ele ouviu falar de um lugar lá longe, no norte, numa cidade chamada Lübeck, perto do mar. Lá vivia um organista velhinho chamado Dietrich Buxtehude. Diziam que a música dele parecia encher o céu inteiro. Bach ficou pensando nisso a noite toda. Ele poderia continuar ali, sendo elogiado, tocando as músicas que já sabia. Era confortável. Era bom ouvir que ele era o melhor. Mas dentro dele uma vozinha perguntava: 'Será que eu já sei tudo? Ou será que ainda tenho muito para aprender?' O problema era que Lübeck ficava muito, muito longe. Eram centenas de quilômetros. E Bach não tinha dinheiro para ir de carruagem. Ele foi conversar com os responsáveis pela igreja e pediu permissão para viajar. Depois arrumou uma pequena trouxa com pão, um casaco e algumas folhas de música. E então fez algo que poucos fariam: foi a pé. Caminhou por estradas de terra e por estradas de pedra. Atravessou florestas de pinheiros, passou por vilarejos onde os cachorros latiam para ele, dormiu em celeiros cheirando a feno. Quando os pés doíam, ele sentava numa pedra, comia um pedaço de pão e cantarolava baixinho alguma melodia. Depois levantava e continuava. Foram muitos e muitos dias de caminhada, enquanto as folhas das árvores ficavam amarelas e o vento ficava mais frio. Finalmente, numa tarde de céu cinzento, ele viu as torres altas de Lübeck e sentiu o cheiro do mar. Foi direto para a grande igreja da cidade. Lá dentro havia um órgão gigantesco, muito maior do que o de Arnstadt. Bach poderia ter entrado dizendo: 'Eu sou Bach, o melhor organista da minha cidade!' Mas não fez isso. Ele tirou o chapéu, sentou-se num dos últimos bancos da igreja, bem lá atrás, e ficou quietinho, esperando. Então o velho Buxtehude começou a tocar. A música subiu pelos tubos e encheu a igreja inteira. Era grande como uma tempestade e delicada como uma chuva fina. Tinha melodias que se cruzavam e conversavam umas com as outras, como pássaros cantando juntos. Bach fechou os olhos. Seu coração batia forte. Ele nunca tinha ouvido nada assim. E percebeu: havia tanta coisa que ele ainda não sabia! Quando a música acabou, Bach esperou todos saírem. Depois caminhou devagar até o velho mestre, que guardava suas partituras. Ele poderia ter mostrado tudo o que sabia fazer. Em vez disso, fez uma pequena reverência e disse: — Senhor Buxtehude, eu caminhei de muito longe. Eu sei tocar um pouco. Mas vim aqui para aprender com o senhor. Posso ficar e ouvir? O velho mestre olhou para os sapatos gastos do rapaz, cheios da poeira da estrada. E sorriu. Bach ficou em Lübeck muito mais tempo do que tinha planejado. Ouvia os concertos, copiava as músicas, observava como o mestre usava os pés nos pedais e como fazia as melodias conversarem. Fazia perguntas. Errava, tentava de novo, aprendia. Quando finalmente voltou para casa, a música de Bach estava diferente. Mais rica, mais cheia, mais bonita. As pessoas de Arnstadt ficaram de boca aberta. — Onde você aprendeu isso? — perguntavam. E Bach respondia, simplesmente: — Com alguém que sabia mais do que eu. Bach continuou aprendendo a vida inteira. Escreveu tantas músicas que, até hoje, trezentos anos depois, elas são tocadas no mundo todo: em igrejas, em teatros e até em caixinhas de música que tocam baixinho antes de dormir.