
Era uma vez, num reino de colinas verdes e rios tranquilos, uma princesa chamada Aurélia. Aurélia tinha um sonho: construir uma casa na árvore. Não uma casinha qualquer, mas a casa na árvore mais bonita do reino, com janelas redondas, uma escadinha de corda e uma bandeira no telhado. Ela já tinha escolhido a árvore. Era o velho carvalho do bosque real, o mais alto e mais largo de todos, com galhos grossos como braços de gigante. — É perfeito — dizia Aurélia, desenhando a casa num papel. — Lá de cima vou ver o reino inteiro! Na manhã seguinte, ela foi até a oficina de seu Bento, o carpinteiro do castelo, com o desenho na mão. Seu Bento olhou o papel, gostou muito e juntou as ferramentas. Os dois foram juntos até o bosque, com tábuas, cordas e pregos numa carrocinha. Mas, quando chegaram ao velho carvalho, o guarda do bosque, um senhor magrinho chamado Ezequiel, estava sentado numa pedra logo ali. — Bom dia, princesa — disse ele, tirando o chapéu. — Posso perguntar o que vão fazer? — Vou construir minha casa na árvore aqui! — respondeu Aurélia, animada. Ezequiel coçou o queixo. — Nesta árvore já mora uma família, princesa. Lá no oco, no meio do tronco, vive uma coruja com seus dois filhotes. Aurélia olhou para cima e não viu nada. — Mas o bosque é do reino — disse ela. — E eu sou a princesa. A árvore é minha também. Ezequiel não discutiu. Só disse, com calma: — Então talvez valha a pena conhecer seus vizinhos antes. Aurélia bufou, mas pediu ao seu Bento que começasse. Ele encostou a escada no tronco e deu a primeira martelada numa tábua. Toc! Na mesma hora, do oco do carvalho, apareceu uma coruja grande, de penas cor de canela. Ela abriu as asas, eriçou as penas e soltou um chiado forte. Depois ficou parada na entrada do oco, com os olhos redondos e amarelos fixos neles, sem sair dali. Aurélia deu um passo para trás. Depois subiu dois degraus da escada, com seu Bento segurando firme lá embaixo, e espiou. Dentro do oco, bem quentinhos, havia dois filhotes de coruja, fofos como bolas de algodão, piscando os olhos e encolhidos um contra o outro. Estavam assustados com o barulho. A princesa ficou muito tempo olhando para eles. A mamãe coruja não piscava. Estava protegendo sua casa, do mesmo jeito que o rei e a rainha protegiam o castelo. Aurélia desceu da escada, devagar. Olhou para o seu desenho. Olhou para o carvalho. Era a árvore perfeita para ela. Mas já era a casa de alguém. — Seu Bento — disse ela, baixinho —, pode guardar o martelo, por favor. Seu Bento sorriu e guardou. — Vamos procurar outra árvore — continuou Aurélia. — Uma que não tenha ninguém morando. Não foi fácil. Passaram a tarde andando pelo bosque. Uma árvore era fina demais. Outra tinha um ninho de vespas. Outra era a casa de uma família de esquilos, e Aurélia nem precisou que ninguém dissesse nada: ela mesma balançou a cabeça e seguiu adiante. Finalmente encontraram uma figueira larga e baixinha, com galhos abertos como uma mão, sem nenhum morador. Não era a árvore mais alta do reino. Mas ficava bem de frente para o velho carvalho. Durante uma semana inteira, seu Bento martelou, serrou e amarrou, enquanto Aurélia pintava as janelas redondas. E, para não incomodar a vizinha, ela pediu que o trabalho fosse feito só no meio do dia, quando as corujas dormem. Quando a casa ficou pronta, Aurélia subiu pela escadinha de corda, com seu Bento de olho lá embaixo, e se sentou junto à janela. O sol estava se pondo, e o céu ficou cor de laranja e depois azul-escuro. Então, do oco do velho carvalho, saiu a mamãe coruja. Ela abriu as asas, deu uma volta silenciosa sobre o bosque e pousou num galho bem em frente à janela da princesa. Logo atrás, os dois filhotes colocaram as cabecinhas para fora do oco, curiosos. A coruja olhou para Aurélia. Aurélia olhou para a coruja. E a coruja fez, baixinho: — Uh-uuu. Desde aquela noite, sempre que Aurélia subia para sua casa na árvore ao entardecer, tinha companhia. Ela contava para as corujas como tinha sido seu dia, e as corujas respondiam do jeito delas, piscando os olhos amarelos. Ela não tinha a casa mais alta do reino. Mas tinha os melhores vizinhos.