
Era uma vez, num vale de casinhas brancas e moinhos de vento, um menino chamado Joaquim. Do lado de cá do riacho morava Joaquim com os pais. Do lado de lá, numa casinha de janelas azuis, morava a vó Benta. Todo domingo, a vó Benta atravessava a pontezinha de madeira com sua bengala e um cesto de bolinhos de fubá, e passava a tarde com a família. Era o melhor dia da semana. Mas naquela primavera, depois de muitos dias de chuva, o riacho encheu e levou a pontezinha embora. Quando a água baixou, o riacho voltou a ser rasinho, com água só até o tornozelo. Mas a ponte tinha sumido, e o carpinteiro da vila só poderia fazer outra no verão. — Tudo bem, Joaquim — disse a vó, da outra margem, acenando. — No verão eu volto. Mas o verão estava longe. E Joaquim teve uma ideia. — Pai, e se eu fizer um caminho de pedras? Para a vó atravessar pisando de uma pedra na outra, sem molhar os pés? O pai gostou. — Eu fico aqui na margem, de olho — disse ele. — Mas o trabalho é seu. Joaquim tirou os sapatos, arregaçou as calças e entrou no riacho. A água era fria e fazia cócegas nas canelas. Ele pegou as pedras que encontrou mais perto: pedrinhas redondas, bonitas, lisinhas. Enfileirou uma atrás da outra até a outra margem. Ficou orgulhoso. Chamou a vó. A vó Benta veio, apoiou a bengala na primeira pedra e pisou. A pedra rolou para o lado, e ela voltou depressa para a margem. — Ih, meu neto — disse, rindo. — Essa pedra é redondinha demais. Joaquim ficou vermelho. Mas não desistiu. No dia seguinte, procurou pedras maiores. Carregou uma por uma, abraçado a elas. Algumas eram tão pesadas que ele precisou rolar pela areia. No fim da tarde, tinha um novo caminho, com pedras grandes. Mas naquela noite choveu de novo. E, quando Joaquim acordou e correu até o riacho, viu que a correnteza tinha empurrado metade das pedras. Estavam espalhadas, tortas, algumas caídas de lado. Joaquim sentou na margem e cruzou os braços. Sentiu uma vontade enorme de chorar. Tinha trabalhado tanto! O pai sentou ao lado dele e não disse nada. Só ficou ali. Depois de um tempo, Joaquim começou a olhar para o riacho com atenção. Reparou numa pedra enorme e chata, que estava ali desde sempre, desde antes de ele nascer. A chuva não tinha mexido nela. Por quê? Ele entrou na água e olhou de perto. A pedra antiga não estava só pousada no fundo. Estava meio enterrada na areia, encaixada, com pedrinhas menores apertadas em volta dela, como se fossem suas ajudantes. E tinha o lado chato virado para cima. — Pai! — gritou Joaquim. — Já sei o que eu fiz errado! Dessa vez ele trabalhou diferente. Para cada pedra, cavava primeiro um buraquinho na areia do fundo. Encaixava a pedra grande lá dentro, com o lado chato para cima. Depois socava pedrinhas pequenas em volta, bem apertadas, até a pedra não balançar nem um pouquinho. Era um trabalho lento. Um dia inteiro para três pedras. Outro dia para mais três. As mãos ficaram cheias de areia, e os joelhos, de arranhõezinhos. Choveu mais uma vez. Joaquim acordou com o coração apertado e correu até a margem. E lá estavam elas: todas as pedras, no mesmo lugar. Firmes. Molhadas e brilhando no sol. No domingo seguinte, a vó Benta chegou à outra margem com sua bengala e seu cesto de bolinhos de fubá. Joaquim atravessou o riacho pelas pedras, foi até ela e estendeu a mão. — Pode vir, vó. Eu seguro. A vó Benta pisou na primeira pedra. Não balançou. Pisou na segunda. Nem um pouquinho. Pedra por pedra, de mãos dadas com o neto, ela atravessou o riacho inteirinho sem molhar os pés. Naquela tarde, comeram bolinhos de fubá na varanda até o sol se pôr. E, quando a noite chegou e o pai levou a vó de volta para casa, Joaquim ficou na janela vendo a lanterna atravessar o riacho, pedra por pedra, até a janela azul se acender do outro lado. Quando o carpinteiro chegou no verão para construir a ponte nova, olhou para o caminho de pedras e coçou a cabeça. — Quem fez isso? — perguntou. — Fui eu — disse Joaquim. — Na terceira vez.