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Histórias para a hora de dormir
Rondon e o Caminho Pedido com Licença
Era uma vez
Rondon e o Caminho Pedido com Licença
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Era uma vez…

Era uma vez, há mais de cem anos, um homem chamado Cândido Rondon. Ele tinha nascido no Mato Grosso, um lugar de rios largos, matas verdes e céus enormes. Rondon tinha uma missão muito grande: esticar um fio comprido, comprido, pendurado em postes de madeira, que ia atravessar a mata inteira. Por esse fio, chamado telégrafo, as mensagens iam correr de uma cidade para outra, rápidas como um passarinho. Rondon viajava com muitos homens. Eles carregavam machados, cordas, rolos de fio e caixas de ferramentas. Andavam o dia inteiro, abriam trilhas e fincavam postes no chão. Era um trabalho cansativo, cheio de lama, calor e mosquitos. Numa manhã, a trilha chegou perto de uma aldeia. Ali morava um povo indígena que conhecia aquela mata desde muito, muito tempo antes. As casas eram cobertas de palha, e no meio havia um terreiro onde as crianças brincavam. Os homens da expedição pararam. Um deles, chamado Bento, coçou a cabeça e disse: — Senhor Rondon, o caminho mais curto passa bem do lado da aldeia. Se a gente for agora, termina hoje. Rondon olhou para a aldeia. Viu uma senhora pilando milho. Viu dois meninos espiando atrás de uma árvore, de olhos arregalados. Viu um homem mais velho de pé na entrada, observando tudo em silêncio. — Hoje não — disse Rondon. — Esta mata é a casa deles. A gente não entra na casa de ninguém sem pedir licença. Bento suspirou. Os outros homens também. Estavam cansados e queriam acabar logo. Mas Rondon mandou todos guardarem os machados e montarem acampamento ali mesmo, longe das casas. No dia seguinte, Rondon foi até a beira do terreiro sozinho, devagar, sem pressa nenhuma. Levava nas mãos alguns presentes: um pedaço de tecido colorido, umas panelas e um saquinho de sal. Colocou tudo no chão, deu alguns passos para trás e esperou. Ninguém veio. No outro dia, ele voltou e esperou de novo. E no outro também. Bento achava aquilo muito estranho. — Por que o senhor não vai lá e explica tudo de uma vez? — Porque eles ainda não me conhecem — respondeu Rondon. — Amizade é como uma planta. Não dá para puxar a folhinha para ela crescer mais rápido. No quarto dia, o homem mais velho da aldeia se aproximou. Pegou o saquinho de sal, cheirou, provou um tiquinho e sorriu. Depois apontou para Rondon e falou uma palavra na língua dele. Rondon não entendeu. Mas, em vez de falar mais alto ou de fazer gestos apressados, ele repetiu a palavra, devagarinho, do jeitinho que tinha ouvido. O velho riu e falou de novo. Rondon repetiu também. E logo os dois meninos que espiavam atrás da árvore estavam rindo junto, corrigindo o jeito engraçado como ele falava. Nos dias seguintes, Rondon aprendeu muitas palavras: água, peixe, amigo, caminho. Aprendeu que havia ali perto uma árvore que o povo considerava muito especial e que não podia ser cortada. Aprendeu que, do outro lado do rio, havia um pedaço de mata onde os bichos tinham seus filhotes. Então Rondon pegou o mapa e desenhou um caminho novo. Era mais comprido. Dava uma volta grande, passava longe da árvore especial e longe do lugar dos filhotes. — Vai demorar mais uma semana — reclamou Bento. Rondon olhou para ele com calma. — Vai. Mas é o caminho certo. E foi assim que fizeram. Os homens abriram a trilha pela volta mais longa. E aí aconteceu uma coisa que ninguém esperava: algumas pessoas da aldeia vieram ajudar. Mostraram onde o chão era firme e onde era brejo. Ensinaram qual madeira aguentava a chuva sem apodrecer. Os meninos carregavam galhinhos e davam risada vendo os postes subirem, um atrás do outro. Quando o último poste daquele trecho ficou de pé, o sol já estava se pondo, pintando o céu de laranja. O velho da aldeia colocou a mão no ombro de Rondon e disse aquela primeira palavra outra vez. Agora Rondon sabia o que ela queria dizer: amigo. Naquela noite, deitado na rede, Bento ficou olhando o fio do telégrafo brilhando sob a lua. Pensou que tinha andado uma semana a mais. E pensou também que nunca tinha trabalhado com tanta gente sorrindo do lado. Lá longe, uma coruja piou. As crianças da aldeia já dormiam. E o fio comprido, comprido, seguia pela mata, pelo caminho que tinha sido pedido com licença.

Para conversar
Rondon escolheu um caminho mais comprido para respeitar a casa de outras pessoas. Tem algum lugar onde você pede licença antes de entrar? Por que será que isso importa?
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Era uma vez… Terminamos!
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