
Era uma vez uma menina chamada Lívia que tinha um lugar preferido no mundo inteiro: a biblioteca do bairro. Era uma casinha amarela com janelas grandes, almofadas coloridas no chão e prateleiras que iam até quase o teto. Todo sábado de manhã, Lívia ia com o pai para a Hora da História. Na Hora da História, a bibliotecária, dona Cida, sentava num banquinho de madeira, abria um livro bem grande e lia com vozes diferentes para cada personagem. A voz do urso era grossa. A voz do passarinho era fininha. E as crianças ficavam de boca aberta, esperando a próxima página. Lívia sabia um livro de cor. Chamava-se 'O Barco de Papel', e ela já tinha lido tantas vezes em casa que sabia até onde ficava cada desenho. Mas Lívia falava baixinho. Quando a professora perguntava alguma coisa na escola, a resposta dela saía tão miudinha que parecia um sussurro de formiga. Ela gostava assim: falar baixinho era confortável, era o jeito dela. Num sábado, quando Lívia chegou, viu as crianças sentadas nas almofadas e dona Cida com um cachecol enrolado no pescoço. A bibliotecária abriu a boca para dar bom-dia, e saiu só um chiado. 'Estou rouca', ela disse, quase sem som. 'Acho que hoje não vai ter Hora da História.' Um menininho pequeno, de uns três anos, começou a fazer biquinho. Uma menina de trancinhas suspirou e abraçou a almofada. O pai de alguém já estava pegando a mochila para ir embora. Lívia olhou para a prateleira. Lá estava 'O Barco de Papel', com sua capa azul. O coração dela começou a bater forte, tum-tum, tum-tum. Ela pensou: 'Eu sei essa história inteirinha'. E logo depois pensou: 'Mas todo mundo vai olhar para mim'. Ela deu um passo para a frente. Parou. Deu um passo para trás. Puxou a manga do pai. 'Pai', ela cochichou, 'e se a minha voz sair pequena demais?' O pai se abaixou e cochichou de volta: 'Então eles vão chegar mais pertinho para ouvir'. Lívia respirou fundo, bem fundo, como quem enche um balão. Pegou o livro azul. Caminhou até dona Cida, que levantou as sobrancelhas, surpresa, e apontou para o banquinho de madeira. As mãos de Lívia tremiam um pouco. Ela abriu a primeira página e começou: 'Era uma vez um barquinho de papel...'. A voz saiu fininha, fininha. O menino do biquinho não ouviu e perguntou: 'O quê?'. Lívia sentiu as bochechas esquentarem. Por um instante, quis fechar o livro e correr para perto do pai. Mas olhou para o desenho do barquinho, que ela conhecia tão bem, e continuou. Desta vez, falou um pouquinho mais alto. E então as crianças fizeram uma coisa engraçada: foram arrastando as almofadas, uma por uma, até ficarem bem pertinho do banquinho, numa rodinha apertada. E assim, bem juntinhos, todo mundo conseguia ouvir. Lívia leu sobre o barquinho que descia a enxurrada, que passava por uma folha gigante, que encontrava um sapo na beira da calçada. Quando chegou na parte do sapo, ela tentou fazer uma voz grossa. Saiu meio esquisita, meio engraçada, e as crianças riram. Mas não era riso de quem caçoa. Era riso de quem está gostando. Lívia riu também, e as mãos pararam de tremer. Dona Cida, sem voz, ajudava do jeito dela: virava as páginas na hora certa, fazia caretas de susto e mexia os braços como se fossem ondas. Quando o barquinho finalmente chegou ao lago grande e ficou boiando sob o sol, Lívia leu a última frase e fechou o livro devagar. Ficou um silêncio pequeno. Depois, o menininho de três anos bateu palmas. E todo mundo bateu palmas junto. Dona Cida escreveu num papelzinho e entregou para Lívia. Estava escrito: 'Obrigada. Você salvou o nosso sábado. Quer ler de novo no mês que vem?' Lívia segurou o papel com as duas mãos. Ela ainda falava baixinho, e tudo bem. Mas naquela manhã, a voz pequena dela tinha enchido a sala inteira. Naquela noite, antes de dormir, Lívia colocou o papelzinho debaixo do travesseiro. Lá fora, a lua estava redonda e quieta. E ela adormeceu sonhando com um barquinho de papel navegando num lago cheio de estrelas.