
Era uma vez um reino pequeno, cercado de campos de trigo, onde todo fim de tarde acontecia uma coisa especial. Quando o sol começava a se esconder atrás das colinas, a caixinha de música da torre tocava uma canção. Era uma melodia doce, plim-plim-plom, que o vento levava pelos campos. E quando os camponeses, os pastores e as crianças ouviam a canção, sabiam: estava na hora de voltar para casa. A princesa Marisol adorava aquela música. Ela subia na torre todos os dias só para ver a caixinha girar. Mas numa manhã, quando o relojoeiro do reino deu corda na caixinha, ouviu-se um tlec. Uma pecinha lá de dentro tinha se partido. A caixinha ficou muda. 'Vou precisar de uma peça nova', disse o relojoeiro, coçando a barba. 'Mas ela só existe na cidade do outro lado das montanhas. Vou demorar sete dias para voltar.' Sete dias sem a canção! Marisol pensou nos pastores lá longe, nas crianças brincando no campo, em todo mundo sem saber a hora de voltar. Primeiro, ela tentou consertar a caixinha sozinha. Abriu a tampa, olhou as rodinhas e as molinhas, empurrou uma, puxou outra. Nada. Só um tlec, tlec triste. Depois, ela teve outra ideia. 'Eu mesma vou cantar a música!' Foi até a janela mais alta da torre, encheu o peito e cantou: 'Plim-plim-plom!'. Mas a voz dela, que era bonita dentro do castelo, sumia no vento antes de chegar ao primeiro campo. Lá embaixo, ninguém levantou a cabeça. Marisol desceu as escadas desanimada e foi parar na cozinha do castelo. A cozinheira, dona Benta, estava lavando as panelas e pendurando as colheres num gancho, perto da janela aberta. Uma brisa entrou, e as colheres balançaram e bateram umas nas outras: tlim, tlim, tlom. Marisol parou. Inclinou a cabeça. 'Dona Benta! A senhora ouviu isso?' 'Ouvi o quê, menina? São só colheres.' Mas para Marisol, não eram só colheres. Ela correu pelo castelo pedindo coisas emprestadas. Dona Benta deu três colheres de metal e uma tampa de panela velha. O jardineiro deu uns tubinhos de bambu. O guarda do portão deu dois sininhos que antes ficavam na sela do cavalo. A rainha, sua mãe, deu uma argola de prata que não usava mais. E o menino da estrebaria trouxe conchas que tinha guardado de uma viagem ao mar. Marisol sentou no chão do pátio com tudo aquilo ao redor. Pegou um aro de madeira e começou a amarrar cada coisa com fitinhas. Primeiro amarrou tudo bem junto, e quando balançou, fez um barulhão: CLANG-CLANG! Os cachorros latiram. Ela riu e recomeçou. Desta vez separou as coisas, deixou um espacinho entre elas, colocou as conchas de um lado e os bambus do outro. Testou, mudou, testou de novo. Tirou a tampa de panela, que fazia barulho demais. Colocou mais uma concha, que fazia um som de água. No fim da tarde, o pai dela, o rei, ajudou a pendurar o aro na janela mais alta da torre, onde o vento sempre soprava. O sol começou a descer. O vento das colinas chegou. E o aro balançou. Tlim... tlom... plim... dlom... Não era a mesma música da caixinha. Era uma música nova, diferente a cada sopro de vento, como se o próprio vento estivesse tocando. E ela era forte o bastante para atravessar o pátio, passar pelos muros e rolar pelos campos de trigo. Lá longe, um pastor levantou a cabeça. Uma menina parou de pular corda. Um velhinho apoiou a enxada no ombro. Eles se olharam, sorriram e começaram a voltar para casa. Sete dias depois, o relojoeiro chegou com a peça nova, e a caixinha de música voltou a tocar plim-plim-plom. Mas o povo do reino pediu uma coisa: que o sino de colheres continuasse pendurado na torre. E daquele dia em diante, todo fim de tarde, as duas músicas tocavam juntas. Naquela noite, Marisol ficou na janela do quarto ouvindo o vento brincar com as colheres, até seus olhos ficarem pesados. E dormiu ao som da música que ela mesma tinha inventado.