
Era uma vez, numa cidadezinha chamada Clarksville, nos Estados Unidos, uma menina chamada Wilma. Ela morava numa casa cheia, cheia de gente: tinha mais de vinte irmãos e irmãs! Na casa de Wilma, sempre tinha alguém rindo, alguém cantando, alguém correndo pelo quintal. Mas Wilma não podia correr. Quando ela era bem pequena, ficou muito doente. A doença foi embora, mas deixou a perna esquerda dela fraquinha, sem força para andar direito. O médico colocou na perna dela um aparelho de metal, com tiras de couro e um sapato pesado. O aparelho ajudava a perna a ficar reta, mas era duro e barulhento. Clec, clec, clec, fazia quando ela andava. Da janela, Wilma via os irmãos brincando de pega-pega e jogando bola no quintal de terra. Ela queria tanto ir junto! Às vezes ia, mas ficava para trás, e alguém dizia: 'Senta aí, Wilma, você é o juiz'. A mãe de Wilma, dona Blanche, tinha um jeito firme e carinhoso. Toda semana, ela e Wilma pegavam um ônibus e viajavam até uma cidade grande, bem longe, onde havia médicos que sabiam cuidar daquela perna. A viagem era comprida. Wilma olhava pela janela do ônibus, vendo as árvores passarem, e pensava: 'Um dia eu vou correr mais rápido que este ônibus'. Os médicos ensinaram exercícios. E aí a família inteira entrou na brincadeira. Todos os dias, os irmãos se revezavam: um massageava a perna de Wilma, outro ajudava a esticar, outro contava até dez. 'Mais uma vez, Wilma!' 'Você consegue!' Várias vezes por dia, a perninha era esticada, dobrada e massageada. Não era fácil. Tinha dia em que a perna doía. Tinha dia em que Wilma tentava dar um passo sem o aparelho e caía sentada no chão. Ela ficava brava, cruzava os braços, às vezes chorava um pouquinho. Mas depois enxugava os olhos, segurava na beirada da mesa e tentava de novo. Wilma começou a fazer uma coisa só dela. Quando a casa estava quieta, ela tirava o aparelho e tentava andar pela sala, um passinho, depois outro, se apoiando nos móveis. Um dia, deu três passos. Na semana seguinte, cinco. Depois, atravessou a sala inteira. Os anos foram passando assim, devagarinho, um passo de cada vez. Até que chegou um domingo muito especial. A família estava na igreja, sentada nos bancos de madeira, quando Wilma, que já tinha uns doze anos, se levantou. E começou a andar pelo corredor da igreja sem o aparelho. Sozinha. Com os dois pés no chão. As pessoas olharam surpresas. Os irmãos arregalaram os olhos. A mãe colocou a mão no peito e sorriu, com os olhos brilhando. Wilma andou até o fim do corredor e voltou, com o coração disparado de alegria. Pouco tempo depois, a mãe embrulhou o aparelho de metal numa caixa e mandou de volta para os médicos. Wilma não precisava mais dele. E sabe o que ela fez com aquelas pernas? Primeiro, jogou basquete na escola. Depois, começou a correr. E correu tanto, e treinou tanto, sem desistir nos dias difíceis, que muitos anos depois viajou até a Itália, para a maior competição de esportes do mundo: as Olimpíadas. Lá, Wilma Rudolph ganhou três medalhas de ouro e foi chamada de a mulher mais rápida do planeta. Mas, em casa, ela continuava sendo a Wilma de sempre. E quando corria pelo quintal de terra com as crianças da vizinhança, agora era ela quem gritava: 'Mais uma vez! Vocês conseguem!' À noite, quando a casa ficava quieta e as estrelas apareciam sobre Clarksville, ela às vezes lembrava daquela menininha olhando as árvores pela janela do ônibus. A menininha tinha razão: um dia, ela correu muito, muito rápido.