
Era uma vez, numa floresta cheia de cipós e folhas grandes, um filhote de bicho-preguiça chamado Bento. Bento morava no alto de uma embaúba, bem pertinho da mamãe, e fazia tudo devagarinho: comia devagarinho, se espreguiçava devagarinho e piscava os olhos devagarinho. Naquele dia, porém, Bento tinha um plano. Do outro lado do igarapé, o riozinho que passava ali embaixo, havia uma árvore carregada de folhas novas, as mais macias da floresta. A mamãe estava cochilando no galho, e Bento pensou: vou buscar umas folhas para ela, bem devagarinho, e volto antes de ela acordar. Bento desceu pelo tronco, um passinho de cada vez. Lá embaixo, o chão estava molhado da chuva da noite, e o igarapé tinha ficado mais largo e mais fundo do que de costume. A água corria fazendo chuá, chuá. O galho comprido que servia de ponte tinha caído e boiava longe dali. Bento parou na beirada. Olhou para a água. Olhou para a árvore das folhas macias. Olhou de volta para a água. E ficou ali, agarradinho numa raiz, sem saber o que fazer. Foi então que o chão começou a tremer de levinho. Tum. Tum. Tum. Entre as folhas apareceu um focinho comprido, depois uma cabeça grande, depois um corpo enorme e escuro. Era a dona Tereza, a anta. Bento se encolheu todo. Ele nunca tinha visto uma anta tão de perto. Ela era grande, fazia barulho ao andar e bufava pelo focinho: frrr, frrr. — Bom dia, pequeno — disse a anta, com uma voz grossa e calma. — Você quer atravessar o igarapé? Bento não respondeu. Ficou só olhando, com os olhos bem redondos. — Eu nado muito bem — continuou dona Tereza. — Se você quiser, pode subir nas minhas costas. Eu levo você até o outro lado. Bento pensou: e se ela for depressa demais? E se ela mergulhar? E se eu escorregar? Ela era tão diferente dele. Tão grande, tão rápida dentro da água. Ele balançou a cabecinha devagar, dizendo que não. — Tudo bem — disse a anta, sem ficar brava. — Eu vou ficar aqui, comendo umas folhinhas. Se mudar de ideia, é só me chamar. E ela ficou mesmo. Mastigava devagar, olhava o céu, de vez em quando molhava as patas na beira do rio. Bento ficou observando. Viu quando um sapinho pulou na cabeça de dona Tereza e ela nem se mexeu, só para não assustar o sapinho. Viu quando um passarinho pousou no lombo dela e ela ficou paradinha, esperando ele terminar de cantar. Bento olhou para a água de novo. Olhou para a anta. E, bem devagarinho, soltou uma garra da raiz. — Dona Tereza — disse ele, baixinho. — A senhora pode ir devagar? — O mais devagar que uma anta consegue — respondeu ela, sorrindo com os olhos. A anta se abaixou na beirada. Bento esticou um bracinho, depois o outro, e se agarrou no pelo curto das costas dela. O coração dele batia rápido, muito mais rápido do que tudo que Bento fazia. Dona Tereza entrou na água. Plof. Ela nadava com a cabeça para fora, firme, sem pressa. A água fazia cócegas nas patas de Bento, mas as costas da anta eram largas e quentinhas. No meio do igarapé, Bento abriu um olho. Depois abriu o outro. E viu os peixinhos prateados passando lá embaixo, as folhas boiando, o sol brilhando na água. — Está tudo bem aí em cima? — perguntou a anta. — Está — respondeu Bento. E dessa vez a voz dele saiu firme. Do outro lado, Bento desceu para a árvore das folhas macias e encheu os bracinhos com as mais verdinhas que encontrou. Depois, separou um punhado e levou até dona Tereza. — Estas são para a senhora — disse ele. A anta comeu as folhas com cuidado, uma por uma, como se fossem um presente muito importante. E eram. Na volta, Bento subiu nas costas dela sem pensar duas vezes. Quando chegaram à embaúba, a mamãe preguiça estava acordando, espreguiçando os braços compridos. Bento subiu o tronco devagarinho, entregou as folhas para ela e apontou lá para baixo. — Mamãe, aquela é a dona Tereza. Ela é minha amiga. A mamãe acenou devagar. A anta acenou com o focinho. E, enquanto a tarde ia ficando dourada e a floresta começava a se aquietar, Bento se aninhou no colo da mãe, mastigando uma folha macia, pensando que às vezes quem parece muito diferente da gente é justamente quem nos ajuda a chegar do outro lado.