
Era uma vez uma vila de casinhas de telhado vermelho, onde morava um velho marceneiro chamado seu Anselmo. A oficina dele cheirava a serragem e a madeira nova, e as prateleiras eram cheias de coisas que ele fazia com as mãos: cadeirinhas, caixinhas, piões e cavalinhos de balanço. Mas a coisa mais bonita de todas ficava na prateleira mais alta. Era um pássaro de madeira, pintado de azul e amarelo, com as asas abertas. Quando alguém soprava um buraquinho no rabo dele, o pássaro assobiava igualzinho a um sabiá. Inês, uma menina de sete tranças e joelhos sempre ralados, passava todos os dias pela oficina só para olhar o pássaro. Seu Anselmo deixava ela entrar, varrer a serragem e, às vezes, segurar o pássaro com as duas mãos. — Ele é muito delicado — dizia o marceneiro. — As asas são finas como folha. Numa tarde, seu Anselmo precisou sair para entregar uma mesa na casa do moleiro. — Inês, você pode cuidar da porta enquanto eu volto? — pediu ele. Inês disse que sim. Ficou sentada no banquinho, balançando as pernas. Lá fora, ouviu as vozes dos amigos brincando na praça. E pensou: se eu mostrar o pássaro para eles, todo mundo vai querer ouvir o assobio. Só um pouquinho. Volto antes do seu Anselmo. Inês subiu no banquinho, pegou o pássaro e correu até a praça. As crianças fizeram roda. Ela soprou, e o pássaro cantou. Todos bateram palmas. Ela soprou de novo, e mais de novo. Até que o Juca, querendo ver de perto, esbarrou no braço dela. O pássaro caiu nas pedras da praça. Crec. Uma das asas azuis tinha se soltado. As crianças ficaram quietas. Inês pegou o pássaro e a asa e voltou correndo para a oficina, com o coração batendo forte. Ela encaixou a asa no lugar, e a asa ficou parada, quase como antes. Se ela colocasse o pássaro de volta na prateleira mais alta, de lado, ninguém ia perceber. Pelo menos, não naquele dia. Inês subiu no banquinho. Esticou os braços. Parou. Lembrou das mãos do seu Anselmo lixando a madeira com tanto cuidado. Lembrou da voz dele dizendo: as asas são finas como folha. E sentiu uma coisa apertada na barriga, como um nó. Ela desceu do banquinho com o pássaro nas mãos. E esperou. Quando o marceneiro entrou pela porta, sacudindo o pó do chapéu, Inês já estava em pé, no meio da oficina, segurando o pássaro e a asa solta. — Seu Anselmo — disse ela, com a voz tremendo. — Eu levei o pássaro para a praça sem pedir. Ele caiu. A asa quebrou. Fui eu. Seu Anselmo olhou para o pássaro. Depois olhou para Inês. Ficou um tempo em silêncio, e o silêncio pareceu muito comprido. — Você podia ter colocado ele de volta na prateleira — disse ele, por fim. — Eu sei — respondeu Inês, baixinho. — Eu quase coloquei. O marceneiro puxou dois banquinhos para perto da bancada. — Então venha. Asa quebrada se conserta com cola, paciência e duas mãos. Hoje vão ser quatro. Inês sentou ao lado dele. Seu Anselmo mostrou como passar a cola bem fininha, como segurar a asa no lugar sem apertar, como esperar a madeira secar. Depois, deu a ela um pincelzinho e um pote de tinta azul, para cobrir a marca da emenda. Enquanto o sol se escondia atrás dos telhados vermelhos, os dois trabalharam juntos, sem pressa. Quando a tinta secou, o marceneiro entregou o pássaro para Inês. — Sopre — disse ele. Inês soprou. E o pássaro cantou como um sabiá, mais bonito do que nunca. No dia seguinte, seu Anselmo colocou o pássaro de volta na prateleira mais alta. Mas, ao lado dele, havia um pássaro novo, ainda sem pintura, com as asas por terminar. — Esse aqui é para a gente fazer juntos — disse ele. — Se você quiser aprender. E Inês quis. Naquela noite, ela dormiu com as mãos ainda cheirando a madeira e a tinta azul, e o nó da barriga tinha ido embora.