
Era uma vez um reino onde, uma vez por ano, acontecia a Festa das Charadas. Nesse dia, o jardim do castelo se enchia de bandeirinhas, e no centro do labirinto de hortênsias o rei escondia um baú com uma charada final. Quem chegasse primeiro e resolvesse a charada ganhava o direito de escolher a sobremesa do banquete. A princesa Clarice adorava a Festa das Charadas. Ela sabia todas as adivinhas dos livros da biblioteca, de trás para frente. O que é, o que é, que tem dentes mas não morde? O pente! O que é, o que é, que quanto mais seca, mais molhada fica? A toalha! Clarice respondia tudo antes de qualquer pessoa terminar de perguntar. Naquele ano, o labirinto tinha sido replantado. As hortênsias estavam mais altas do que nunca, azuis e cor-de-rosa, formando paredes macias e cheirosas. Quando a trombeta tocou, as crianças do reino correram para dentro. Na entrada, Clarice encontrou Flora, a filha da jardineira. Flora tinha terra nas unhas e um chapéu de palha grande demais para a cabeça. — Princesa — disse Flora —, o caminho mudou este ano. Minha mãe e eu plantamos as hortênsias. Se quiser, eu posso… — Não precisa — respondeu Clarice, ajeitando a coroa. — Eu sei resolver labirintos. Já li três livros sobre eles. E entrou sozinha, decidida, pelo primeiro corredor. Virou à direita. Virou à esquerda. Virou à direita de novo. As paredes de hortênsias eram todas parecidas. Azul, rosa, azul, rosa. Logo, Clarice estava diante de uma parede que ela tinha certeza de já ter visto. Voltou. Tentou outro corredor. Chegou de novo à mesma parede. As vozes das outras crianças ficavam cada vez mais longe. O sol da tarde começou a baixar. Clarice se sentou num banquinho de pedra, com o vestido sujo de pétalas, e sentiu as bochechas ficarem quentes. Ela, que sabia todas as charadas do reino, não sabia sair de um jardim. Foi então que ouviu um assobio baixinho do outro lado da parede de flores. Era Flora, que regava um canteiro. Clarice pensou em ficar quieta. Pensou em tentar mais uma vez sozinha. Mas olhou para os próprios sapatos cheios de terra, respirou fundo e levantou a voz. — Flora? Você está aí? — Estou, princesa. — Eu… eu me perdi. Você me ajuda a achar o caminho? Flora apareceu numa passagem que Clarice nem tinha notado, escondida atrás de uma hortênsia mais cheia. — As hortênsias azuis ficam do lado da fonte — explicou Flora. — Se a gente seguir sempre as azuis, chega no meio. Clarice seguiu Flora, olhando as flores com atenção pela primeira vez. Azul, azul, azul. E, de repente, lá estava: o centro do labirinto, com o baú de madeira esperando. Nenhuma outra criança tinha chegado ainda. Clarice abriu o baú. Dentro, havia um papel com a charada final, escrita com a letra do rei: O que é, o que é, que cresce quando a gente divide? Clarice já sabia a resposta. Mas, antes de falar, olhou para Flora, que tinha ficado um passo atrás, esperando. — Vamos dizer juntas? — perguntou a princesa. Flora arregalou os olhos e sorriu. Quando o rei e as outras crianças chegaram ao centro do labirinto, encontraram as duas meninas de mãos dadas. E disseram, ao mesmo tempo: — A alegria! O rei bateu palmas. — E quem escolhe a sobremesa do banquete? Clarice apontou para Flora. — Foi a Flora que achou o caminho. Eu só conhecia a charada. Sem ela, eu ainda estaria sentada no banquinho de pedra. Flora pensou um pouco e escolheu bolo de fubá com goiabada, que era o doce que a mãe dela fazia nos dias de festa. E, naquela noite, pela primeira vez, a jardineira e a filha se sentaram à mesa grande do banquete, ao lado da princesa. Quando as estrelas apareceram sobre o jardim, Clarice olhou pela janela do quarto para o labirinto escuro e pensou nas hortênsias azuis. Amanhã, ela ia pedir para Flora ensinar o nome de todas as flores. Afinal, ainda havia muita coisa que ela não sabia.