
Era uma vez um menino chamado Nicolas que passou a semana inteira contando os dias para o sábado. No sábado, a família ia fazer um piquenique no parque, embaixo da árvore grande perto do lago dos patos. A mamãe ia fazer sanduíche de queijo, o papai ia levar a bola e a vovó Cida ia levar o bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Na sexta à noite, Nicolas deixou a cesta pronta na porta. Dentro, colocou a toalha xadrez, o pote de bolinhas de sabão e o pão velho para dar aos patos. Mas, quando o sábado chegou, Nicolas acordou com um barulho no telhado. Plic, plic, plic. Ele correu até a janela. O céu estava cinza, o quintal estava cheio de poças e a chuva caía forte, sem parar. — Não vai dar para ir ao parque hoje, filho — disse o papai, olhando o céu. Nicolas sentiu os olhos arderem. Sentou no sofá, abraçou a almofada e ficou emburrado. A irmãzinha, Lara, também ficou triste, porque tinha esperado a semana toda para ver os patos. Até a vovó Cida, que tinha chegado com o bolo embrulhado num pano, suspirou olhando a janela. A casa ficou quieta. Só se ouvia a chuva. Nicolas olhou para a cesta parada na porta. Olhou para a vovó, que segurava o bolo no colo. Olhou para a Lara, que desenhava patos no vidro embaçado com o dedo. E, de repente, teve uma ideia. — Mamãe, posso usar as cadeiras da cozinha? E o lençol velho? E os prendedores de roupa? A mamãe levantou a sobrancelha, mas disse que sim. Nicolas arrastou duas cadeiras para o meio da sala, uma de frente para a outra. Jogou o lençol por cima e prendeu as pontas com os prendedores. Pronto: era uma árvore grande, com uma sombra bem fresquinha embaixo. Depois, estendeu a toalha xadrez no tapete. — Falta o sol — disse ele, coçando a cabeça. Correu até o quarto e voltou com uma folha de papel amarela e a lanterna do papai. Recortou um círculo meio torto, desenhou raios em volta e colou na parede com fita. Depois, apontou a lanterna para o sol de papel. A sala ficou com um cantinho iluminado e quentinho. Lara bateu palmas. — E o lago dos patos? — perguntou ela. Nicolas pensou. Pegou a bacia azul da área de serviço, colocou um pouquinho de água no fundo e jogou dentro os patinhos de borracha da hora do banho. Lara riu tão alto que a vovó Cida riu também. O papai entrou na brincadeira e fez quac, quac, quac. A mamãe trouxe os sanduíches de queijo numa travessa. A vovó desembrulhou o bolo de cenoura e cortou fatias bem grandes. E todos se sentaram no chão, embaixo da árvore de lençol, com o sol de papel brilhando na parede. Depois de comer, Nicolas abriu o pote de bolinhas de sabão. As bolinhas subiram devagar e flutuaram pela sala, brilhando com a luz da lanterna. Lara corria atrás delas, o papai tentava pegar com a ponta do nariz, e a vovó Cida contou como eram os piqueniques de quando ela era menina, na beira de um rio, com melancia gelada. Lá fora, a chuva continuava. Plic, plic, plic. Mas ninguém mais olhava para a janela. No fim da tarde, a vovó segurou a mão de Nicolas. — Sabe que esse foi um dos piqueniques mais gostosos que eu já fiz? Nicolas sorriu e olhou para o pão velho, ainda dentro da cesta. — Esse aqui a gente guarda para os patos de verdade — disse ele. — No próximo sábado. Quando a noite chegou, a árvore de lençol virou uma cabaninha de dormir. Nicolas e Lara se deitaram embaixo dela, com o sol de papel apagado na parede e a chuva cantando baixinho no telhado, como uma música de ninar.