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Histórias para a hora de dormir
Ruivo e o Amigo Que Virava Bola
Era uma vez
Ruivo e o Amigo Que Virava Bola
Empatia8 min · 3-6 anos (geral)
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Era uma vez…

Era uma vez um filhote de lobo-guará chamado Ruivo, de pernas compridas e finas como gravetos, que morava num campo dourado do cerrado. Ruivo adorava correr. Corria atrás das borboletas, corria atrás da própria sombra, corria só para sentir o vento nas orelhas. Só faltava uma coisa: um amigo para correr junto. Numa manhã, ele viu um bichinho novo perto do cupinzeiro. Era pequeno, redondinho, com uma casca cheia de faixas, e fuçava a terra com um focinho pontudo. Era um tatu-bola. — Um amigo! — pensou Ruivo, e disparou na direção dele, levantando poeira, com as patas batendo forte no chão: tum, tum, tum! Mas, antes que Ruivo chegasse, o tatu fez ploc! Fechou-se inteirinho e virou uma bola dura, sem focinho, sem patas, sem nada. Ruivo parou, confuso. Cheirou a bola. Esperou. Nada. — Ei, eu só quero brincar! — disse ele. A bola continuou bola. No dia seguinte, Ruivo tentou de novo. Chegou correndo ainda mais rápido, para o tatu não ter tempo de se fechar. Ploc! Bola outra vez. Então Ruivo teve outra ideia: empurrou a bola com o focinho, bem de leve, para ver se ela abria. A bola rolou um pouquinho e se apertou mais ainda. Ruivo latiu, chamou, deu voltas em torno dela. Nada adiantou. Ruivo voltou para a toca com as orelhas caídas. — Ele não gosta de mim — contou para a mãe. — Toda vez que eu chego, ele vira bola. A mãe lambeu a cabeça dele devagar. — Será que é isso mesmo? — foi só o que ela disse. Ruivo não soube responder. Na tarde seguinte, Ruivo estava farejando umas frutas debaixo da lobeira quando o céu escureceu de repente. Uma sombra enorme passou por cima dele, depressa, depressa. Logo depois veio um estrondo: CRAAAC! Um galho seco e grande despencou da árvore e caiu bem pertinho. Ruivo deu um pulo. O coração dele disparou. Sem pensar, ele se enfiou debaixo de uma moita, encolheu as pernas compridas e ficou ali, pequenininho, tremendo. Era só um urubu que tinha passado voando, e um galho velho que tinha caído. Não havia perigo nenhum. Mas Ruivo demorou para sair. As pernas não queriam obedecer. E, encolhido ali, sentindo o coração bater na garganta, ele se lembrou de uma bola de casca listrada perto do cupinzeiro. Ruivo ficou pensando. Ele era grande. Chegava depressa. Fazia tum, tum, tum no chão. Para um bichinho daquele tamanho, um lobo-guará correndo devia parecer um galho caindo do céu. Na manhã seguinte, Ruivo fez tudo diferente. Não correu. Foi andando devagarinho, pisando macio, e parou bem longe do cupinzeiro. Ali ele se deitou, com a barriga na terra e o queixo sobre as patas, para ficar baixinho. O tatu levantou o focinho, viu Ruivo e... ploc. Bola. Ruivo sentiu vontade de chegar perto. As patas coçavam para correr. Mas ele ficou onde estava, quietinho, olhando as formigas passarem. O sol subiu. Uma brisa balançou o capim. Depois de muito tempo, a bola abriu uma frestinha. Um olhinho preto espiou. Ruivo não se mexeu. Só piscou devagar. A fresta fechou. Abriu de novo. Fechou. Abriu. No outro dia, Ruivo trouxe uma fruta da lobeira, madura e cheirosa. Deixou a fruta no meio do caminho, entre os dois, e voltou para o seu lugar, lá longe. Deitou-se e esperou. O tatu abriu a casca, esticou o focinho, cheirou o ar. Deu um passinho. Parou. Deu outro. Chegou até a fruta e deu uma mordidinha, sem tirar o olho de Ruivo. Ruivo balançou só a pontinha do rabo. Assim foi por vários dias. A cada manhã, Ruivo se deitava um pouquinho mais perto, e o tatu demorava um pouquinho menos para abrir. Até que, numa tarde, o tatu veio andando sozinho, com suas unhas compridas fazendo tic, tic, tic, e se sentou ao lado de Ruivo. — Meu nome é Bolota — disse ele, baixinho. — Você é muito alto. — Eu sei — respondeu Ruivo, mais baixinho ainda. — Por isso eu me deito. Daquele dia em diante, os dois inventaram uma brincadeira nova. Bolota se fechava de propósito, e Ruivo o rolava com o focinho morro abaixo, bem devagar, só até onde Bolota pedia. Depois Bolota se abria rindo e pedia mais uma vez. E, quando Ruivo queria correr de verdade, avisava antes: — Vou correr! E Bolota ficava olhando da sombra, sem susto nenhum. Quando a noite caiu sobre o cerrado e as primeiras estrelas apareceram, Ruivo voltou para a toca andando macio. Lá atrás, perto do cupinzeiro, Bolota se ajeitava num cantinho de terra morna, aberto, tranquilo, com o focinho virado para o lado de onde o amigo viria na manhã seguinte.

Para conversar
Ruivo só entendeu o tatu depois que levou um susto parecido. Você já sentiu alguma coisa que te ajudou a entender o que outra pessoa estava sentindo?
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Era uma vez… Terminamos!
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