
Era uma vez uma menina chamada Mola, que tinha um superpoder nas pernas: ela pulava mais alto que qualquer pessoa do mundo. Com um impulso, passava por cima do muro da escola. Com dois, alcançava o telhado da padaria. Já tinha tirado gato de árvore, bola de calha e até um balão preso no fio do poste. No bairro, todo mundo gostava da Mola. Mas, na praça, as coisas andavam esquisitas. Toda tarde, as crianças brincavam de pique-bandeira. Eram dois times, duas bandeiras de pano e um risco de giz no meio do chão. Quem atravessasse o risco e fosse tocado ficava colado, parado feito estátua, até um colega vir salvar. E havia uma regra que a turma tinha combinado, sentada em roda, antes do primeiro jogo: na brincadeira, nada de superpoder. — Combinado? — tinha perguntado o Dudu. — Combinado! — todos tinham respondido. Mola também. Só que, na hora do jogo, as pernas de Mola pareciam esquecer. Quando alguém ia tocá-la, ela dava um pulinho. Só um pulinho. E pronto: passava por cima de todo mundo, pegava a bandeira e voltava antes que alguém piscasse. — Ganhei! — gritava. Na primeira vez, o time dela comemorou. Na segunda, comemorou menos. Na terceira, ninguém disse nada. — Você pulou — reclamou a Cecília, do outro time. — Foi um pulo pequeno — disse Mola. — Quase não conta. — Conta, sim. A gente combinou. Mola cruzou os braços. Achava aquela regra muito boba. Para que ter pernas de mola e ficar com os pés no chão? No dia seguinte, quando Mola chegou à praça, o jogo já tinha começado. Ninguém a chamou. Ela esperou na beira do risco de giz, quicando no lugar. — Posso entrar? Dudu coçou a cabeça. — É que, com você, o jogo acaba muito rápido. E a gente gosta quando ele demora. Mola se sentou no banco, sozinha. Ficou olhando. Viu a Cecília correr em zigue-zague, com a língua de fora. Viu o Dudu ficar colado e berrar por socorro. Viu o pequeno Tiago, o menor de todos, salvar três colegas de uma vez e ser carregado nos ombros. Todo mundo ria, suava, caía, levantava. Ninguém ganhava depressa. E parecia que era justamente disso que eles gostavam. Mola olhou para o risco de giz. Olhou para os próprios tênis. Depois se levantou e foi até a roda. — Eu quero jogar do jeito combinado — disse. — Pé no chão. — Promete? — perguntou a Cecília, desconfiada. — Deixa eu mostrar. O jogo recomeçou. Mola correu como todo mundo corria: com os pés batendo no chão, desviando para um lado e para o outro. Era muito mais difícil! Ela ficou sem fôlego. Tropeçou. Foi tocada e ficou colada um tempão, até o Tiago vir salvá-la. — Valeu, Tiago! — gritou, e saiu correndo de novo. Então chegou a hora mais importante. Mola conseguiu atravessar o campo inteiro e agarrou a bandeira do outro time. Faltava só voltar. Mas a Cecília vinha de um lado, o Dudu vinha do outro, e os dois estavam fechando o caminho. Não havia por onde passar. As pernas de Mola formigaram. Os joelhos se dobraram sozinhos. Um pulinho só e ela estaria do outro lado, com a bandeira na mão, vencedora. Ninguém conseguiria alcançá-la. Mola apertou os dedos dos pés dentro dos tênis. E ficou no chão. Tentou driblar pela direita, depois pela esquerda... e a mão da Cecília encostou no ombro dela. — Colada! — gritou a Cecília, de olhos arregalados. Mola parou feito estátua, com a bandeira ainda na mão, e devolveu o pano. — Colada — repetiu, ofegante. E, para sua surpresa, começou a rir. O time de Mola perdeu naquela tarde. Mesmo assim, na hora de escolher os times para a partida seguinte, três crianças gritaram ao mesmo tempo: — A Mola é do meu! Estavam todos tomando água no bebedouro quando bateu um vento forte. A bandeira vermelha, esquecida em cima do banco, subiu rodopiando e foi parar lá no alto, no telhado do coreto. As crianças olharam para cima. Depois olharam para Mola. Mola olhou para o Dudu. — Aqui não é o jogo — disse ele, sorrindo. — Pode? — perguntou Mola para a turma. — Pode! — responderam todos. Mola dobrou os joelhos e — zóing! — subiu até o telhado, pegou a bandeira e desceu com ela balançando como uma capa. A praça inteira bateu palmas. Quando o céu ficou alaranjado e os postes da praça se acenderam, Mola voltou para casa andando, com os pés bem no chão e as pernas cansadas de tanto correr. No bolso, levava um pedacinho de giz que a Cecília lhe dera, para que, no dia seguinte, fosse ela a riscar a linha do jogo.