
Era uma vez um menino comprido e magro chamado Abe, que morava numa cabana de troncos no meio da floresta, num lugar chamado Indiana. Isso foi há muito, muito tempo, quando não havia luz elétrica nem escola por perto. Abe ajudava o pai a cortar lenha, a carregar água e a plantar milho. Mas o que ele mais amava no mundo eram os livros. E livro, naquele lugar, era coisa rara como ouro. Abe era capaz de andar a manhã inteira só para pedir um livro emprestado. Foi assim que, um dia, ele bateu à porta de um vizinho, o fazendeiro Josiah Crawford. — Ouvi dizer que o senhor tem um livro sobre a vida de George Washington — disse Abe, torcendo o chapéu nas mãos. — O senhor me emprestaria? O senhor Crawford olhou para aquele menino de calças curtas demais para as pernas. — Empresto. Mas cuide bem dele, rapaz. — Como se fosse meu, senhor. Abe voltou para casa abraçado ao livro. Leu enquanto descansava do arado. Leu comendo pão de milho. À noite, deitado de bruços perto da lareira, leu até as brasas ficarem fraquinhas. Quando os olhos já se fechavam, guardou o livro no lugar mais seguro que conhecia: um vãozinho entre dois troncos da parede, bem ao lado da cama, para pegá-lo assim que o sol nascesse. Naquela noite, porém, choveu. Choveu forte, com vento. E a água foi escorrendo, quietinha, por entre os troncos da cabana. De manhã, Abe esticou a mão para o vãozinho e sentiu uma coisa fria e mole. O livro estava encharcado. A capa tinha entortado. As páginas estavam grudadas, inchadas e manchadas de barro. Abe sentiu um aperto na barriga. Ele secou o livro perto do fogo, folha por folha, com todo o cuidado. Mas, quanto mais secava, mais as páginas ficavam onduladas e marrons. Nunca mais seria o livro bonito do senhor Crawford. Abe ficou sentado, olhando para ele. Pensou numa porção de coisas. Podia devolver o livro bem depressa, fechado, e sair antes que o fazendeiro o abrisse. Podia dizer que já estava assim quando o pegou. Podia demorar a devolver, demorar bastante, até o vizinho esquecer. Cada uma dessas ideias fazia o aperto na barriga ficar maior. Então Abe embrulhou o livro num pano, calçou as botas e saiu. O caminho até a fazenda nunca tinha parecido tão comprido. A lama grudava nos pés. Duas vezes ele parou. Duas vezes continuou. O senhor Crawford estava no curral quando Abe chegou. — Já terminou de ler, rapaz? Abe desembrulhou o pano e estendeu o livro aberto, com as páginas tortas bem à mostra. — Eu o guardei entre os troncos da parede, senhor. Choveu de noite e ele molhou. Foi descuido meu. Eu não tenho dinheiro para pagar. Mas tenho dois braços. Posso trabalhar para o senhor até o livro estar pago. O fazendeiro pegou o livro. Virou algumas páginas. Ficou um tempo em silêncio, e Abe ouviu o próprio coração. — Três dias colhendo folhas de milho no meu campo — disse o senhor Crawford, por fim. — E ficamos acertados. — Sim, senhor. Foram três dias compridos. O sol queimava, as folhas de milho arranhavam os braços, e as costas de Abe doíam de tanto se abaixar. No primeiro dia, ele trabalhou calado. No segundo, o fazendeiro lhe trouxe uma caneca de água fresca. No terceiro, quando o sol já descia, Abe amarrou o último feixe e limpou o suor da testa. O senhor Crawford veio andando pelo campo com o livro na mão. — Dívida paga — disse ele. E estendeu o livro para Abe. — É seu. Abe arregalou os olhos. — Meu? — Você pagou por ele, não pagou? Um livro manchado é um livro como outro qualquer. As palavras continuam todas aí dentro. Abe voltou para casa quando a noite caía e os grilos começavam a cantar. Ia devagar, cansado, com as mãos cheias de calos. Mas o aperto na barriga tinha sumido fazia três dias, desde a hora em que ele abrira aquele pano no curral. Naquela noite, perto da lareira, Abe leu de novo a história de George Washington, passando o dedo pelas páginas onduladas. Era o primeiro livro que ele tinha na vida, e Abe o guardou — longe da parede, desta vez — numa prateleira bem alta e bem seca. O menino cresceu, e cresceu muito. Virou advogado, e as pessoas da sua cidade diziam que podiam confiar nele de olhos fechados. Chamavam-no de Abe, o Honesto. Muitos anos depois, o menino da cabana de troncos se tornou presidente dos Estados Unidos: Abraham Lincoln. E contam que, mesmo morando numa casa enorme e cheia de livros novos, ele nunca se esqueceu de um certo livro torto, manchado de chuva.