
Era uma vez, numa cidade à beira de um grande lago chamada Cafarnaum, uma casa de pedra onde morava um pescador chamado Pedro. Com ele moravam o irmão, André, a esposa e também a mãe da esposa: a sogra de Pedro. Era ela quem acordava primeiro. Era ela quem amassava o pão, punha a mesa e sabia de cor quem gostava de peixe com mais sal e quem gostava com menos. Naquela casa, ninguém ficava sem um lugar à mesa. Naquele sábado, porém, a casa amanheceu quieta. A mesa estava vazia. A sogra de Pedro não conseguiu se levantar. Sentia a testa quente como pedra ao sol e, ao mesmo tempo, um frio que a fazia tremer debaixo da coberta. Era uma febre forte. Ela tentou se sentar e a casa girou. — Fique deitada, mãe — pediu a filha, pondo um pano molhado na testa dela. E justo naquele dia! Pedro tinha ido à sinagoga com Jesus, o mestre de quem ele não parava de falar, e era bem capaz de trazê-lo para casa, junto com os amigos Tiago e João. Visitas chegando, e ela ali, sem forças nem para erguer uma jarra. Do lado de fora, ouvia as gaivotas e o barulho das ondinhas do lago. As horas passavam devagar. O pano na testa esquentava, e a filha o trocava por outro. Então ela ouviu passos no pátio e vozes conhecidas. Pedro entrou primeiro, ainda falando alto, e parou ao ver a mesa vazia. — O que aconteceu? — É a mamãe — disse a esposa. — Está com muita febre. Pedro olhou para André. André olhou para Jesus, que tinha acabado de passar pela porta. E os dois falaram quase juntos: — Mestre, ela está doente. O senhor pode vê-la? Jesus não perguntou mais nada. Atravessou a sala e entrou no quartinho onde ela estava deitada. A sogra de Pedro quis ajeitar o cabelo, quis pedir desculpas por não haver nada pronto, mas a voz não saiu. Jesus se aproximou da esteira e se inclinou. Olhou para ela com calma, como quem tem todo o tempo do mundo. Depois estendeu a mão e segurou a mão dela. A mão dele era firme e fresca. Com cuidado, ele a ajudou a se levantar. E, naquele mesmo instante, a febre foi embora. Não foi aos pouquinhos, como quando a gente sara de um resfriado. Foi de uma vez. O frio parou. A casa parou de girar. A testa ficou fresca, e as pernas, firmes. Ela ficou de pé no meio do quarto, com a mão ainda na mão de Jesus, sentindo-se como numa manhã depois de uma boa noite de sono. — A febre a deixou! — sussurrou a filha, com as mãos na boca. Todos ficaram olhando, sem saber o que dizer. Pedro abriu um sorriso enorme. A sogra de Pedro olhou para Jesus. Tinha o coração tão cheio que as palavras pareciam pequenas demais. Então ela fez o que sabia fazer. Alisou a túnica, prendeu o cabelo e foi direto para a cozinha. — Mãe, descanse! — disse a filha. — A senhora acabou de sarar! — Por isso mesmo — respondeu ela, já pegando os pratos. Em pouco tempo, a mesa estava cheia. Ela trouxe o pão que tinha assado na véspera, os peixes que Pedro tinha salgado, partiu figos, pôs azeitonas numa tigela, encheu a jarra de água fresca. Estendeu a esteira boa, aquela guardada para os dias de festa. Serviu Jesus primeiro, depois Tiago, João, André e Pedro. Lembrou-se de quem gostava de mais sal e de quem gostava de menos. E só se sentou quando viu que não faltava nada a ninguém. Jesus partiu o pão e sorriu para ela. A sogra de Pedro sorriu de volta. Suas mãos, que de manhã não conseguiam erguer uma jarra, agora cheiravam a figo e a pão. Quando o sol se pôs e a noite chegou a Cafarnaum, ouviu-se um burburinho na rua. A notícia tinha corrido. Gente da cidade inteira vinha chegando, trazendo pessoas doentes até a porta da casa de Pedro. E Jesus saiu para cuidar delas, uma por uma. A sogra de Pedro ficou na porta, vendo aquilo. Depois voltou para dentro, pegou a jarra e os copos, e foi oferecer água a quem esperava na fila, cansado do caminho. Fez isso até bem tarde, sob as estrelas, de um lado para o outro, com passos leves — os passos de alguém que, naquela manhã, nem conseguia se levantar.